APOSTILA DE FENÔMENO PSICOSSOMÁTICO

FENÔMENO PSICOSSOMÁTICO
“Tudo se passa como se algo estivesse escrito no corpo, algo que se oferece como
um enigma” (Lacan)
Apresentação: o ser humano é por natureza complexo, traz em si, além das
questões genéticas as informações colhidas ao longo da vida, desde a existência
intra-uterina até o dia de sua morte. Tais informações são por excelência,
constituintes da personalidade do ser, do ID. Elas, associadas às questões
genéticas, podem definir e definem atitudes e comportamentos. Dito de outra forma,
minhas orientações familiares, sociais, escolares, religiosas, associadas aos meus
desejos, vontades, pretensões de realizações e conquistas, podem interferir em
algum momento nas atitudes que irei adotar.
Diante do exposto anterior, nos debruçamos sobre as possibilidades de
estudar e compreender tais atitudes oriundas das somatizações frente aos
fenômenos que contornam nossa vida cotidiana.
O psicanalista se depara diariamente com pacientes em busca de ajuda profissional
a fim de tratar e livrar-se de tais sentimentos, é por isto que dedicamos este e o
próximo módulo à compreensão do fenômeno Psicossomático e da psicoterapia
breve.
A todas e todas, desejamos uma excelente aula.

1- Psicossomática e FPS (Fenômeno Psicossomático):
” O psicossomático é algo que , de todo modo, no seu fundamento, está
profundamente enraizado no imaginário” (Genebra,1975).
INTRODUÇÃO: Iniciamos nosso estudo perguntando, o que é um fenômeno?
Você sabe? De forma simplista, é correto afirmar que:
Um fenômeno é algo que surge, que aparece, e pode de repente sumir, dele
ficando somente as recordações e/ou conseqüências.
Ao longo de nossa de vida vamos fazendo nossas “colheitas sociais”, e os fatos
vivenciados, as decepções, frustrações, ausências vão se acumulando em nossa
memória, nossa mente, nossa estrutura mental torna-se uma espécie de arquivo
vivo que, em algum momento irá nos reapresentar tais fatos, o que pode gerar
conseqüências pelo acumulo ou intensidade que elas se nos apresentam como
fenômenos psicossomáticos.
“A forma como isso ocorre em cada sujeito é de uma ordem
absolutamente particular, de tal forma que, só temos acesso, a
partir do próprio sujeito em questão, como em qualquer outra
situação de análise”.1
A abordagem profissional neste caso pode ser considerado sob duas
perspectivas, a saber: médica e a psicanalítica. É importante
que se diga que uma abordagem não anula a outra, sendo na verdade aliadas, e
de suma importância dentro de suas respectivas delimitações. Podemos dizer até
1 http://www.stum.com.br/conteudo/conteudo.asp?id=6744

que adotam uma posta de sinergistas entre si, que contribuirão com o diagnóstico
e tratamento. Assim apresentamos algumas possibilidades inerentes aos FPS.
a) As lesões:
* Podem tanto, apenas, desaparecer com o tempo, como podem também
colocar em risco a vida do indivíduo doente.
* Tais lesões podem alternar-se em a uma espécie de presença e ausência.
Pode ir e voltar o tempo todo. De forma involuntária.
A frequência está vinculada a cada caso, especificamente, e também, a cada
época da vida do sujeito.
b) Formas das doenças:
* Basicamente elas podem se apresentar de das seguintes formas diferentes:
Incurável e curável.
As incuráveis podem ser:
Com risco de vida, onde o paciente, geralmente, morre rápido.
☼ Incurável com risco de morte. Assim, o paciente tem a doença, mas vive por
muito tempo e acaba indo a óbito por outra causa.
☼ Incurável sem risco de morte, controlando total ou parcialmente.
☼ Curável.

1.1. VEJAMOS AQUI ALGUNS CONCEITOS PERTINENTES:
Holófrase: Uma espécie de doença (deficiência) na linguagem, que promove
um tipo “congelamento” ou gelificação nos signos (Significantes) também quando
um significante não se traduz claramente na dialética, em outras palavras, certas
sequências são decompostas ou aparecem de forma desfragmentada na fala.
O trabalho do terapeuta será de desdobramento significante. Exigindo maior
“sagacidade por parte do analista pode-se dizer que a holófrase é uma posição de
discurso. Este FPS, então, como algo que foi escrito, mas, não pode ser lido, ou
na qual não há como captar o significante da escrita (FALA). Eis o grande e
complexo desafio para o analista.
Lacan deixou um importante legado, para o tratamento das questões
psicossomáticas.
“É por esse viés, pela revelação do gozo específico que há na
sua fixação, que sempre é preciso abordar o psicossomático. É
nisso que podemos esperar que o inconsciente, que a invenção
do inconsciente, possa servir para algum coisa . É na medida em
que esperamos dar-lhe o sentido do que se trata”.2
O inconsciente no FPS, deve-se lembrar que o sujeito não é uma equivalência
ao fenômeno. É justamente aí que se pode agregar o legado de Lacan no uso do
inconsciente. O que está em questão no FPS não é o desejo, mas sim o sujeito que
2 Lacan em Genebra, em resposta ao questionamento sobre o gozo como um fenômeno Psicossomático.

manifesta o desejo. Este sim está em questão e no escopo da análise. A questão
seguinte é: como fazer a intervenção?
2. OS TRAUMAS E O FENÔMENO PSICOSSOMÁTICO
Para Sigmund Freud o trauma perpassa todo o seu percurso
teórico. Nos primeiros textos, essa concepção é abordada como
“um incremento da excitação no sistema nervoso” (FREUD,
1892/1975, p.197), mediante o qual não se tem ação ou palavras
que permitam sua dissipação; ele é, a princípio, ligado ao factual,
mas logo esse autor se dá conta de que, por trás das histórias
contadas por seus pacientes, há muito de fantasia e passa a se
interessar mais pelo texto que lhe é trazido do que pelo contexto
real pretendido. Por outro lado, ele já havia descoberto que a
temporalidade do trauma é a do só-depois ou do a posteriori na
qual ocorre a validação de uma impressão que não pôde ser
significada no momento de sua percepção, mas que foi fixada,
retornando posteriormente em outros eventos.3
No ano de 1920, Freud utiliza em sua concepção do aparelho psíquico a
metáfora extraída da Embriologia de “vesícula viva”, cuja camada mais externa se
transforma em um escudo protetor, Freud dirá que são traumáticos aqueles
estímulos que atravessam esta camada, este escudo protetor, o que ocorreria
devido à falta de preparo do eu e aos fatores de surpresa e susto.
3 S. Freud

Posteriormente, em 1925, ele associou o trauma à idéia da angústia como um
sinal e reação a este, que traria ao ego uma experiência de desamparo. Porém, é
em seu texto datado em 1934 que se encontra a descrição mais clara sobre trauma.
Os traumas são definidos por S. Freud como impressões primitivas da
infância, da época em que a criança está começando a falar, cujo conteúdo se
relaciona.
O fato de Freud articular o trauma com a época em que a criança está
começando a falar, pois, como a linguagem aqui, ainda não fez sua entrada, não
ficam lembranças no inconsciente, mas traços. Por isso se apresenta como
impressões.
“as impressões de natureza sexual e agressiva… e,
indubitavelmente, também a danos precoces ao ego
(mortificações narcísicas)” Eles são ” experiências sobre o
próprio corpo do indivíduo, ou percepções sensórias,
principalmente de algo visto e ouvido” que promovem “alterações
do ego, comparáveis a cicatrizes”4
Chamamos a atenção para a forma descritiva do trauma como “experiências
no corpo do indivíduo” o corpo é quem toma nota, e registra os acontecimentos, as
marcas ficam no corpo, mas, essas experiências ficam registradas numa camada
mais profunda. (psiquê).
A teoria lacaniana reafirma essa universalidade, mas, de maneira diferente:
traumática é a própria entrada na linguagem que ocasionará a ordenação de gozo,
4 (FREUD, 1934/1975, p.93).

a regulamentação do gozo remanescente e a impossibilidade de acesso à Coisa.
Dessa forma, todo ser falante é traumatizado, isso é fato de estrutura.
PSICOSSOMÁTICA COMO GRUPO DE ESTUDO
1.- Introdução
O propósito deste é demonstrar, através de experiências como grupo de estudo,
qual é a natureza do dedicar-se à Psicossomática.
Teórico: a Psicossomática hoje, se apresenta como um grande e vasto corpo de
conhecimentos a ser assimilado, embora não se defina exatamente como um
campo do saber. Como em todas as disciplinas, ainda mais as de natureza
integrativa. Porém, mais ainda há a ser feito, no sentido de compor e relacionar o
saber acumulado acerca de processos isolados do ser humano, tanto a nível físico,
como social e psíquico, em um único todo. Já se foi o tempo em que cada qual
procurava firmar a imaturidade e insegurança de sua disciplina no ataque aos
outros campos de estudo, procurando demonstrar que o seu ponto de vista era o
único possível, verdadeiro e fecundo.
Clínico: há duas maneiras em que a nossa atuação clínica é influenciada pelo
estudo da Psicossomática. Todo novo conhecimento implica em re-acomodação do
conhecimento anterior, já hierarquizado e relacionado, segundo certos princípios e
normas, como já nos demonstrou Piaget. Mas, além disso, a natureza do
conhecimento Psicossomático, a visão de ser humano de modo integrado,

biopsicossocial, afeta nosso trabalho, seja em consultório, seja em instituição, tanto
na maneira de entender como de atuar, independentemente de nosso campo de
ação profissional (Psicologia, Medicina, Fisioterapia, etc.). E nosso atuar
profissional, dependente de um corpo teórico, muda, sob a luz dessa visão
integrativa, quase meta-clínica.
Pessoal: obviamente, tanto o atuar profissional, como o adquirir conhecimentos se
dão em uma pessoa. Assim sendo, os temas abordados e a própria ampliação de
horizontes advinda da aquisição de conhecimento, nos força a rever e reestruturar
muitas coisas sobre as quais pensávamos ter certeza ou dávamos como certas e
acabadas. Isso não apenas em nível técnico, mas também em nível pessoal. Certos
conhecimentos muito compartimentalizados podem ser manipulados sem grande
envolvimento pessoal, mas isso é praticamente impossível de ocorrer em quem
trabalha com saúde. Quem lida com pessoas, especialmente com pessoas que
sofrem, está sempre pondo em voga valores e posicionamentos que são
impossíveis de não serem também pessoais. Mais do que isso, há o fato de que
quando se estuda psicossomática, se aprende a atentar ao significa particular que
uma coisa adquire a uma certa pessoa, com sua história e seu presente, de modo
que nos sensibilizamos ao humano das histórias e destinos que nos trazem e isso,
obviamente, levamos para a nossa vida.
Cada pessoa de nosso grupo reagiu a cada um desses itens de maneira própria e
pessoal. Aliás, é esse é o primeiro e grande ensinamento da Psicossomática: todo
fenômeno humano assume um caráter extremamente único, pois o mesmo fato
histórico é vivido por organismos diferentes, com histórias diferentes, propósitos
diferentes e uma constituição bio-energética diferente, que, por sua vez, recebe a
influência desses fatores de novo e de novo, em movimento espiral que confere

uma configuração especialíssima e única a cada ser em cada momento.
Esperamos ilustrar esse ponto de vista, inclusive, com esse nosso texto.
Agradeço aos colegas tudo o que me proporcionaram nesse ano de convivência, de
apoio a troca, à discussão, e também a honra de ser escolhido para a apresentar e
introduzir o leitor a esses pequenos flashes de nossa experiência como estudantes
da Psicossomática.
A seguir, a apresentação de um pouco dessas reflexões e ocorrências nos campos
teórico, clínico e pessoal. Esperamos que a brevidade deste formato possa lhes
transmitir um pouco do vivo sabor do que foi esse ano de estudos.
Pedimos que compreendam que esses textos são apenas amostras, como um
pequeno álbum de retratos de viagem, cenas, recortes, onde o observador é
convidado a transportar-se pelo relato, aos cenários da viagem.
2.- Aspectos Teóricos: algumas considerações acerca de definições básicas
2.1.- Binômio “saúde-doença”
Um binômio indica uma linha, um continuum onde um extremo é o oposto do outro,
caracterizando-se, cada qual, pela ausência de qualquer grau do outro. Assim, por
exemplo, “claro-escuro”. Embora, um lado seja o oposto do outro, não são
diferentes em si, pois se referem à mesma modalidade do fenômeno considerado,
se referindo a variações de um processo ou acontecimento que, a partir de um
certo ponto dado, passa a caracterizar-se pelo seu oposto.

O binômio “saúde-doença” se refere a uma certa área da existência humana. Uma
área em que identificamos um processo passível de variação dentro de dois
extremos determinados pelo nosso estágio atual do conhecimento.
O usamos para nos referir, de um lado, à força, ao vigor, a disposição, o bem estar,
o sucesso, a alegria, capacidade e plenitude de gozo da vida e suas possibilidades:
a saúde. E a cada apagar de cada luz dessa ribalta da vida, um passo é dado no
outro sentido, o da doença.
A doença, então, é a representação do que tolhe, impede, interrompe, constrange,
limita e incapacita para o pleno aproveitamento e livre fluxo da vida, seja em que
setor da existência esses processos se abaterem.
Sempre estamos cortando o real com nossas palavras. Não podemos nos esquecer
dessa limitação intrínseca do verbo, que sempre indica um ponto de vista, uma
relatividade de apreciação do fenômeno. Sempre um ponto de vista, nunca final,
sempre dependente. Assim é a palavra, assim é a teoria. Dependente da
tecnologia, da história, das forças e movimentos políticos e sociais, que criam e
recriam inter-relações entre as coisas que vivemos e encontramos, procurando
organizá-las de um modo mais confortável para nos relacionarmos com elas.
Essa visão que proporciona esse relacionamento, nunca será definitiva, nunca
plena ou total, porque construímos os sentidos, na nossa relação com os
fenômenos e eles não pré-existem a essa relação.

Então, o binômio saúde-doença nos descreve, indica ou conta, sobre o modo da
pessoa se por diante da vida e a maneira como vivencia suas possibilidades e seus
recursos, diante dos desafios e oferendas da vida.
Embora, a tradição das ciências positivas tenha uma forte posição em relação à
clareza de dados quantitativos e objetivos, indicadores de doença e sua ausência –
a saúde – esses conceitos não são nada claros como se propõem, como indica a
dificuldade de se criar uma escala quantitativa para a dor ou a mudança de valores
normais de alguns parâmetros (como pressão arterial e índices aceitáveis de certas
substâncias no sangue), sempre ligados ao estágio atual do conhecimento e a
questões históricas.
Em 1989, o psicanalista J. Mac Dougall afirma que “sem afeto não se liga a psiquê
ao soma.” Nada mais justo, portanto, do que acreditar que, no esforço de
manutenção do nosso equilíbrio psíquico, sintomas apareçam como uma forma de
defesa de algo real ou imaginário, como causa de bloqueios afetivos. Sem
habilidade para sublimação (mecanismo de defesa bem-sucedido que elimina a
tensão) nos utilizamos de outros mecanismos de defesa, tais como repressão,
recalque, negação, racionalização, isolamento, projeção e formação reativa,
bloqueando assim a expressão direta de necessidades instintivas, e assim
adoecemos.
Doença e saúde, portanto, se referem a um estado das pessoas, e não a órgãos e
partes do corpo. O corpo nunca está só doente ou só saudável, pois nele se
expressam informações da mente, que está em constante conflito (“funcionamento
simultâneo de impulsos opostos ou contraditórios”, in Teoria de Dinâmica do
Conflito, de Solange Lopes de Souza – apostila do curso). Assim sendo, o corpo,

por si mesmo, nada faz. Basta observar um cadáver. O corpo de um ser humano
vivo deve seu funcionamento, sua saúde e /ou doença às instâncias de sua
consciência e inconsciência.
Freud já demonstrava que o ego, antes de tudo, é corporal, e só mais tarde se
transforma em ego psíquico. Segundo ele, tanto a saúde quanto a doença podem
ser vistas como representativas da relação ego-self.
É um campo bastante fugidio e escapadiço esse, compreendido entre a “saúde” e a
“doença”, porque muitos e variados são os seres humanos.
A participação do ser humano como parte ativa na evolução, desenvolvimento e
cura da doença é algo que se torna cada vez mais claro. G. Groddeck afirma em
1992: “A doença é uma criação do ser humano, criação original, espontânea, último
esforço ao mesmo tempo de compreensão e ocultamento do que nele o
ultrapassa.”
Mas, é certo que, nossos contemporâneos, movendo-se no espaço cultural que
criamos, venham a nós, procurando ajuda e dizendo-se “doentes”, sempre que
algum processo impedir, diminuir ou cercear seu pleno uso e gozo de suas
capacidades e possibilidades. Ao passo que sempre estaremos atentos e buscando
formas de ampliar o campo da concretização da maior realização humana, da
viabilização do complexo maravilhoso e variável da existência humana, o que
chamaremos de promover a “saúde”. A vida, as dificuldades, empurram os seres
humanos para um lado dessa escala, o da doença, e nós, tentamos equilibrar o
“Jogo” nos esforçando para o outro lado, o da saúde.

Nosso papel é tentar compreender esses processos e tentar, de algum modo, como
podemos e pudermos, auxiliar as pessoas nessa tarefa viver a vida da melhor
maneira possível, auxiliando-a a conviver e realizar, participar e sentir, receber
ajuda e deixar também sua colaboração entre nós. Evidentemente, isso tem
implicações em todas as áreas da vida humana.
Infelizmente, nessa tentativa, muitas vezes, violência e brutalidade são cometidas
em seu nome. Esse binômio se refere, portanto, ao contínuo onde se refletem os
aspectos mais complexos do ser humano: a viabilidade de suas possibilidades de
ser e viver, o modo de organizar-se diante da relação entre o que é ele mesmo, o
que poderia ser e o que, concretamente, seu ambiente lhe oferece e/ou poderá vir a
ser, dependendo do que concebe como aceitável, de seu conformismo ou
intolerância.
A doença pode ser considerada a forma física de expressão dos conflitos.
Tomamos o cuidado para diferenciar o conceito de doença (expressão mental) do
conceito de sintoma (expressão corporal). Assim que um sintoma se manifesta no
corpo logo chama a atenção, atraindo nosso interesse e energia desviando-nos do
caminho que anteriormente trilhávamos, exigindo novas posturas e reformulações
de conceitos. Afinal, um corpo não pode viver sem uma consciência e também não
pode ficar doente sem a consciência. Lembremo-nos que a doença faz parte da
saúde assim como a morte faz parte da vida.
Em suma, são termos qualificativos para certos aspectos da existência, para nos
referirmos a como vivemos e como experimentamos o nosso viver.

Muitos pacientes nos chegam após peregrinação por múltiplos profissionais
carregando dezenas de exames e nos falando de suas frustrações, pois apesar de
terem suas vidas limitadas pela doença, os médicos nada encontram que justifique
sua dor, seu cansaço, sua tristeza etc. Do ponto de vista científico, são pessoas
saudáveis, mas não encontram bem-estar em suas vidas. São doentes.
Para um mundo recheado de cobranças de boa forma, boa imagem, com padrões
estabelecidos do que é bom comer, do que é bom vestir, a quantas horas dormir,
que exercícios físicos fazer etc, nos sentimos sempre inadequados de alguma
forma na tentativa de corresponder ao que socialmente é “saudável” e nos
tornamos doentes por não termos altura, o carro do ano, a casa na praia, a
barriguinha lisa como acreditamos que “deveria” ser. Há o caso conhecido da
americana que submeteu-se a 14 cirurgias plásticas porque seu desejo é ser como
a Barbie!!! Acredito que ela não é saudável, apesar da aparência que adquiriu.
Ser saudável implica em bom senso (bem sentir) para fazer escolhas para si do que
é bom, independente dos outros. Isto é muito difícil, pois somos fruto do nosso
contexto sócio-religioso-cultural onde o bem e o mal, e o certo e o errado são
rígidos e pré-estabelecidos, não levando em conta aptidões e limitações naturais de
cada um. Não há como ser saudável sem valorizarmos nossas conquistas, nossos
talentos, nos sentirmos criativos, produtivos e úteis.
Queremos fazer uma última ressalva, quanto aos padrões de normalidade.
Acostumou-se a criar padrões externos para isso, critérios de normalidade
objetivos, que embora sejam úteis, devem ser vistos com ressalvas e cuidados.
Especialmente, ter-se a consciência de que esses critérios quantitativos-empíricos
não esgotam o tema “saúde-doença” e que se referem somente a uma dimensão

do ser humano, a físico-química e que critérios estatísticos são interessantes
ficções numéricas que atuam em uma esfera lógica (populacional) bastante
diferente da lógica do indivíduo assim considerado.
2.2.- O que é “psicossomática”?
Na era moderna, o impacto que a descoberta dos microorganismos e sua
importância na etiologia dos quadros orgânicos causou tamanho impacto que esse
modelo de causa (monocausal e externa) dominou completamente o pensamento
acerca de como as doenças se instalavam no organismo. Soma-se a isso a
dominância do pensamento positivista e cartesiano e teremos um quadro do
paradigma da época em relação ao adoecer: um microorganismo externo ou evento
traumático desequilibrava o meio interno do organismo e a doença se produziria.
Contava-se também com as malformações e agentes tóxicos.
Mas, o fato é que, embora esse fosse o pensamento predominante, já se notavam
pontos de pesquisa que traziam uma perspectiva diferente: a que não havia
somente fatores externos ou genéticos envolvidos. Para isso colaboraram de
maneira muito forte J. M. Charcot, a escola de Nancy e, J. Breuer e, especialmente,
S. Freud.
O caminho, porém, até aí, foi longo.
Heinroth usou o termo pela primeira vez em 1818 para indicar que algumas
doenças físicas teriam uma causa psicológica, indicando a influência psíquica nos
fenômenos físicos. Em 1828 ele usaria o termo “somatopsíquico” para indicar as
influências dos processos físicos sobre o psiquismo, processos esses de natureza

patológica. Em 1939, nos EUA, é fundada a primeira associação de
psicossomática, com a presença marcante de Franz Alexander, que investigava a
maneira como certos conflitos de natureza psicológica determinavam quadros
orgânicos.
Com Felix Deutsch, em 1922, temos a introdução do termo “medicina
psicossomática”. Em 1939, com o primeiro número da revista Psychosomatic
Medicine, temos a seguinte definição: “Seu objetivo é estudar a inter-relação dos
aspectos psicológicos e fisiológicos do funcionamento normal e anormal do corpo e
integrar a terapia somática na psicoterapia”.
Com S. Freud, como citamos, temos o estudo da influência das emoções sobre o
corpo preocupando-se com a etiologia na formação dos sintomas. Seus conceitos
de repressão e conversão forneceram instrumentos para a compreensão das
doenças psicossomáticas. Para Freud, o afeto mais a crença entram em conflito
com o ego e são conseqüentemente reprimidos. Esta energia é descarregada em
sintomas e inervações somáticas.
Franz Alexander, na segunda metade do século passado, afirma: “As respostas
fisiológicas aos estímulos emocionais, normais e mórbidos, variam de acordo com a
natureza do estado emocional que as desencadeia. Havendo uma especificidade
na maneira pela qual uma força psicológica motivadora poderia expressar-se.” . Ele
considerava que “toda doença é psicossomática, uma vez que os fatores
emocionais influenciam todos os processos do corpo, através de vias nervosas e
humorais” (in Medicina Psicossomática, de F. Alexander).
Na década de 30, C. G. Jung afirma: “A distinção entre mente e corpo é uma
dicotomia artificial, um ato de discriminação baseada muito mais na peculiaridade

de cognição intelectual do que na natureza das coisas. De fato, é tão íntimo o interrelacionamento
dos traços psíquicos e corporais que podemos não somente
estabelecer inferências sobre a constituição da psiquê a partir da constituição do
corpo como também podemos inferir características corporais a partir das
peculiaridades psíquicas.” (in The Collected Works).
Em 1962, Donald Winnicott diz a respeito de transtorno psicossomático: “….este
estado de doença no paciente é uma organização de defesa com determinantes
muito poderosos…”. Para ele, “a enfermidade psicossomática relaciona-se a um
ego fraco (fruto de uma maternagem insuficiente)…”. Em 1964, Winnicott completa:
“O transtorno psicossomático não é o estado clínico expresso em termos de
patologia somática ou funcionamento patológico (colite, asma, eczema etc), mas
sim a persistência de uma cisão na organização do ego do paciente.” (in
Explorações psicanalíticas, capítulo 20).
Assim, nascia a idéia de psicogênese dos quadros orgânicos, usada, nesses
princípios para equilibrar uma visão exclusivamente materialista na concepção da
gênese das doenças, onde estas necessariamente seriam causadas por agentes
externos, não havendo status de seriedade para os fatores emocionais ou
psíquicos. Mas, essa idéia – de psicogênese – não fazia outra coisa que não o
reducionismo oposto da idéia de “físicogênese”.
Com o tempo e novas pesquisas, notou-se que as doenças não são unicausadas,
mas sim, multicausadas, havendo participação de fatores físicos-constituicionais,
fisiológicos, de fatores psicológicos-emocionais e de fatores ambientais, incluindose
o ambiente físico e o social. O ser humano passa, então, a ser visto como uma
unidade bio-psíquica imersa em um ambiente físico-social. Do confronto desses

sistemas, de sua relação, advirá a pessoa como ela se apresenta a nós, inclusive
suas doenças. A concepção atual de “psicossomática”, portanto, é aquela que vê o
ser humano como uma unidade bio-psico-social e que entende que somente assim
ele poderá ser compreendido e poderemos gerar conhecimentos úteis para o alívio
de nossas dores e sofrimentos.
Dada essa origem histórica e do seu desenvolvimento, o termo se presta a certa
confusão, somando-se a isso o uso ainda freqüente da expressão para designar
quadros orgânicos que tenham forte componente emocional, atualmente
designados como “somatoformes”.
Psicossomática, no nosso entendimento, é, portanto, não uma área de estudo
científico propriamente dita, mas uma atitude de compreender o ser humano de
uma forma mais ampla, abrindo-se a nossa atenção à complexidade do ser
humano, do seus sentidos e significados, evitando assim, os malefícios da
superespecialização e sua conseqüente desumanização dos atendimentos. Essa
atitude e esse movimento acaba por levantar importantes temas que devem ser
estudados de diferentes pontos de vista. Quer dizer, não há uma “psicossomática”
da doença ou doenças “psicossomáticas”… há seres humanos integrais, não
partidos, não divisos, lutando para viver e assim devemos recebê-los e procurar
fazer nosso melhor.
2.3.- O que é “saúde”?
Comecemos pela definição da Organização Mundial de Saúde: “Completo bemestar
físico, mental e social, e não apenas ausência de doença”. A saúde pode ser
determinada em certas situações por meio de alguns valores mensuráveis tais

como temperatura, pulso, pressão sanguínea, altura, peso, acuidade visual,
auditiva, exames laboratoriais etc. Porém, a utilização apenas desses parâmetros
configura uma visão reducionista da saúde. A própria OMS amplia esses
parâmetros para um grupa de fatores bem mais amplos como o contexto social, por
exemplo. Segundo a entidade, saúde é um recurso necessário para a vida diária e
não um objetivo de vida. Promove-se saúde melhorando qualidade de vida
(condições de trabalho, moradia, educação, lazer etc.).
É aquilo que buscamos promover na vida de nossos pacientes, ou melhor, ajudá-lo
a promover em suas vidas. É um valor, um dado dependente de uma série de
valorizações decorrentes do que previamente assumimos por normal, desejável ou
satisfatório. E como tal, sua significação, varia enormemente.
Entendemos, que se caracterize pela eficiência em se obter o necessário para o
equilíbrio orgânico, sem prejuízo sensível para outras áreas do organismo em foco.
Em outra palavras, “saúde” é um conceito. Diz-se “saudável” o organismo que tem
a propriedade de conseguir o que tem que conseguir, faz o que foi feito para fazer,
em todas as tarefas necessárias para que continue vivo, com custos aceitáveis para
sua estrutura. Quando o ganho, o benefício para os interesses do organismo,
sobrepassa os investimentos, dizemos “doença”. Esta não se restringe à
integridade orgânica, apenas, mas, também à qualidade aceitável do viver
subjetivo, em relação às demandas internas em confronto com as do ambiente
(físico e social) onde esse organismo precisa atuar para garantir suas
necessidades. Porém, lidamos apenas e diretamente com as representações
psicológicas dessas produções ou com as notícias fragmentárias da qualidade das
relações e sua eficiência da pessoa com o meio.

“Saúde”, nesse sentido, é a vivência de ter o necessário, ter conseguido o
suficiente, gostar do que se faz suficientemente, ter relações sociais que lhe
supram as necessidades de apreço e companhia, assim como as de segurança,
alimentação, com uma estrutura física funcional para permitir-lhe realizar suas
tarefas e ser seu instrumento de contato e operação com/o “mundo exterior”, com
um conforto relativo da dinâmica interna de forças e desejos, conflitos e
impedimentos.
2.4.- O que é “doença”?
Chamamos de “doença” ao fracasso adaptativo do organismo frente à demanda
ambiental em relação aos seus recursos. A “doença” é o conjunto fenomênico das
manifestações e sinais dessa dificuldade adaptativa. A modulação do complexo
somatopsíquico não foi suficiente para re-equilibrar suas funções a um estado
compatível com o bem estar físico-psico-social. As formas e manifestações desse
processo serão as mais variadas possíveis.
Para continuarmos vivos, precisamos manter o funcionamento orgânico (incluo o
psiquismo como parte integrante e inseparável do organismo) dentro de certos
parâmetros. E contamos com inúmeros mecanismos – modos de ação – para nos
manter dentro daqueles. A insuficiência desses para cumprir sua função diante da
demanda, seja de que natureza for, manifesta-se como sinais e sintomas que
agrupamos em entidades denominadas “doenças” ou, mais modernamente,
“transtornos”, que comprometem nossa alegria de viver.
Para finalizar, gostaríamos de apresentar ao leitor esse pensamento de Groddeck:

“Curar seria interpretar corretamente o que esta totalidade (o homem) está tentando
expressar através dos sintomas e ensinar-lhe um modo menos doloroso de autoexpressão;”
HISADA, Sueli, 2003, Conversando sobre psicossomática, Editora Revinter.
WINNICOTT, D. W., 1989, Tudo começa em casa, Editora Martins Fontes.
3.- Estudos de Caso e Reflexões Pessoais
3.1. – Intervenção Psicológica Dentro de Uma Visão Psicossomática
3.1.1. – INTRODUÇÃO:
A cefaléia acompanha o ser humano ao longo de sua existência. Ela é tão
freqüente que, em algum momento, quase todo ser humano sem sinal de
anormalidade, já vivenciou, pelo menos uma vez, algum tipo de cefaléia, seja como
sintoma ou doença. Estudos epidemiológicos recentes apontam para a prevalência
do sintoma da cefaléia, ao longo da vida, para 69% a 93% de indivíduos do sexo
masculino e 94% a 99%, do feminino.
Desde o Egito antigo, massagens, relaxamentos e compressas são utilizadas para
obtenção de alívio do sintoma. Isso demonstra que fatores psíquicos estão
intimamente relacionados a essa experiência que, muitas vezes, remete o indivíduo
a enormes sofrimentos. Indiscutivelmente, os aspectos psíquicos normais ou
anormais podem ser acompanhantes, agravantes, desencadeantes, perpetuantes e
mesmo amenizantes das cefaléias. É com freqüência que percebemos que, através
da via somática, o indivíduo comunica a sua subjetividade.

Dor de cabeça ou cefaléia, nome científico das dores de cabeça, é definida como
sensação dolorosa na cabeça, pescoço e face. Elas podem ser de vários tipos
diferentes. Existem mais de 150 tipos e podem ser primárias (causadas por
distúrbios bioquímicos no cérebro que levam ao mau funcionamento dos
neurotransmissores e / ou receptores. Ex: enxaqueca ou migrânea), ou secundárias
(causada por problemas em qualquer região do corpo, podendo ter inúmeras
causas). As cefaléias primárias são elas próprias o sintoma e a doença do
indivíduo.
As cefaléias quando crônicas (que duram meses ou anos) tornam-se
profundamente problemáticas ou incapacitantes, transformando em grande
sofrimento a vida dos indivíduos. A cefaléia crônica é, sem dúvida nenhuma, um
grande desafio para os profissionais que buscam ajudar os indivíduos que se
encontram nessa condição álgica.
Cefaléias e Abordagem Cognitivo – comportamental
É reconhecida a necessidade de que o tratamento da dor crônica envolva
profissionais de várias áreas. Esse reconhecimento da multidimensionalidade da
dor crônica fez surgir, a partir dos anos 50s, Centros Multidisciplinares, para o
tratamento da dor crônica. Esses centros são cada dia mais freqüente em muitos
países. O sucesso terapêutico requer esforço multidisciplinar, englobando várias
áreas do conhecimento humano, que incluem a neurologia, a psicologia, a
psiquiatria, a anestesiologia, a fisiatria, além da enfermagem. Todos esses
profissionais, muito freqüentemente, assumem a função de “cuidadores” do
paciente.

O tratamento da dor crônica necessita, muitas vezes, de vários tipos de abordagens
que podem variar desde uma psicoterapia de apoio, até tratamentos cirúrgicos
radicais onde nervos são cortados e mecanismos contra a dor são implantados
dentro do cérebro.
Apesar de existir várias formas de tratamento, nem um deles isolado pode resolver
todos os tipos de dor. Por isso, na abordagem do doente de dor crônica, é muito
freqüente se associar vários tipos de tratamentos paralelos. Essa associação deve
ser planejada entre os vários profissionais de saúde envolvidos.
O campo da psicologia oferece uma grande ajuda no tratamento, no estudo e na
compreensão da dor crônica e das cefaléias. A identificação da presença e / ou
influências de fatores subjetivos que possam dar origem, manter ou até piorar a
sensação dolorosa, é tarefa de suma importância com contribuições valiosas para a
compreensão do sofrimento causado pela experiência álgica.
Dados sobre comportamentos e reações à dor não só auxilia os profissionais
ligados a saúde mental, como também pode orientar os profissionais de outras
especialidades envolvidos no processo, a selecionar o tipo de tratamento mais
adequado para o maior sucesso da terapêutica.
No que diz respeito ao tratamento dos doentes de cefaléia crônica, a psicologia
pode instrumentalizar os doentes a administrar o problema com mais adequação,
flexibilizando e aumentando suas possibilidades de enfrentamento, além de
oferecer o suporte indispensável para a recuperação e melhoria da qualidade de
vida. Através do fortalecimento psíquico, os indivíduos que sofrem de cefaléia
crônica, tornam-se mais seguros para administrar sua dor funcionalmente, evitando

assim, que estes busquem excessivamente a assistência médica ocupando, de
forma exagerada, leitos hospitalares.
Programas de tratamento baseados no modelo Cognitivo-Comportamental têm
alcançado bastante sucesso no controle da dor crônica em geral. A abordagem
Cognitivo-Comportamental tem sido cada vez mais utilizada para o tratamento da
cefaléia crônica. Isso porque o aspecto sensorial está muito ligado aos aspectos
cognitivos, afetivos e comportamentais do indivíduo. A terapia cognitivocomportamental,
por considerar as relações entre indivíduo e ambiente, procura
articular o mundo interno do doente (cognições, pensamentos e sentimentos,
emoções) e seu mundo externo (comportamento individual e sociedade, resposta
ambiental). Para isso busca instrumentalizar o doente para uma convivência com a
dor menos penosa, além de fornecer toda a informação sobre o que é a doença, os
fatores desencadeantes, as dores conseqüentes e o uso de medicamentos
preventivos.
Através dessa abordagem, o doente é levado a analisar a ligação entre
pensamento, emoção, comportamentos e fatores ambientais, que contribuem, tanto
para o surgimento, quanto para a perpetuação dos sintomas da doença. Procura-se
estimular a aderência ao tratamento, substituir comportamentos que possam
desencadear crises de cefaléias por aqueles que possam preveni-las e diminuir a
percepção da dor. É importante instrumentalizar o doente para que os
desencadeantes e conseqüentes ambientais, alimentares e emocionais sejam
controlados pelo mesmo. Busca-se, desta forma, que o indivíduo que sofre de
cefaléia possa desenvolver uma reestruturação cognitiva dando uma resignificação
a sua condição de saúde.

Durante o tratamento psicoterapêutico, avalia-se e trata-se a depressão e a
ansiedade, que geralmente estão associadas à cefaléia crônica. A terapia objetiva
reduzir os sintomas da cefaléia crônica, promovendo e estimulando o doente a
desenvolver estratégias de enfrentamento mais adaptativas e eficientes, mudando
as cognições distorcidas a respeito da doença e diminuindo os comportamentos de
esquiva e sintomas psicológicos (ex: depressão, ansiedade e estresse), além de
melhorar a percepção da qualidade de vida.
No estudo de caso a seguir, são apresentados os procedimentos de intervenção
psicológica na linha cognitivo-comportamental utilizados no tratamento da cefaléia
crônica diária no ambulatório da Liga de Dor do Centro Acadêmico Oswaldo Cruz
(FMUSP) e Centro Acadêmico (EEUSP). A Liga de Dor foi fundada em 1995 por
alunos do curso de medicina e enfermagem, com o suporte dos membros do Centro
de dor da Divisão Clínica Neurológica do HCFMUSP. Com o objetivo acadêmico, a
Liga visa também o atendimento dos pacientes por profissionais de várias áreas de
ambas as instituições e pesquisadores.
Os alunos atendem a pacientes com dor crônica, discutem as possibilidades
diagnósticas e condutas com profissionais de diversas especialidades
neurologistas, anestesistas, fisiatras, psiquiatras, enfermeiros, assistentes sociais,
psicólogos, entre outros chegando, através de discussões interdisciplinar, ao
diagnóstico e tratamento. Além do atendimento ambulatorial, a Liga de Dor realiza
cursos anuais sobre temas em dor e desenvolve pesquisas. A partir de 2000, a liga
também admite estudantes de psicologia que são coordenados por profissionais da
área que igualmente têm a oportunidade de discutir o psicodiagnóstico e tratamento
de cada doente da Liga.

Neste ponto gostaria de esclarecer o percurso normalmente percorrido pela maioria
dos doentes da Liga, até chegarem ao ambulatório. É preciso que se tenha em
mente, que o doente que chega na Liga provavelmente já procurou inúmeros
médicos, recebeu várias intervenções terapêuticas sem sucesso e com
regularidade abusa de medicações ou as usa de modo inadequado. Muitas vezes
encontra-se deprimido, ansioso, irritável, hostil, impaciente, desesperançoso e
descrente do médico, o que dificulta sua aderência a qualquer proposta terapêutica,
tendendo a abandonar o tratamento na menor dificuldade.
3.1.2. – OBJETIVOS:
O trabalho a seguir teve como objetivo o de relatar, para fins educativos dos
estudantes de psicologia da Liga, um caso de uma avaliação e atendimento
psicológico na linha da terapia cognitivo comportamental, elucidando as questões
específicas de um atendimento de paciente ambulatorial e descrevendo o curso da
terapia realizada na Liga de Dor do Centro Acadêmico Oswaldo Cruz (FMUSP) e
Centro Acadêmico (EEUSP).
Dentro dessa proposta, os objetivos da psicologia foram os de avaliar os fatores
psicológicos que podem estar influenciando na percepção de dor pelo paciente
(como a depressão, falta de suporte social, ansiedade e outros), oferecer ao doente
o suporte e tratamento psicológico adequado, melhorando a qualidade de vida
deste sujeito e reduzindo o efeito debilitante das dores na sua vida. Além disso,
visava-se preparar esse doente para melhor utilizar suas estratégias de
enfrentamento das dores que poderão surgir ao longo do tempo.
3.1.3. – MÉTODO:

3.1.3.1.- Sujeito:
A.E.Z.C. é homem, 43 anos, casado, chileno com o diagnóstico de cefaléia crônica
diária intensa. Escolaridade superior incompleto em informática, atualmente
trabalha como autônomo dando aulas e assistência técnica em empresas e
particulares.
3.1.3.2.- Instrumentos:
Para a avaliação e o tratamento psicológico, foram utilizados os dados do protocolo
médico disponíveis para a equipe, além das informações colhidas na entrevista
psicológica semi dirigida e a aplicação dos instrumentos de avaliação a seguir:
Características da Sensação: Escala Visual e Analógica de Intensidade da Dor
(EVA);
Aspectos Afetivos: BDI (Inventário Beck de Depressão); BAI (Inventário Beck de
Ansiedade); BHS (Escala Beck de Desamparo).
3.1.3.3- Procedimento:
Como é o habitual na Liga de Dor, inicialmente o doente foi avaliado e
diagnosticado e pela equipe da medicina. O estudante de psicologia acompanhou o
atendimento e fez observações do comportamento durante o mesmo convidando-o,
ao final, para uma entrevista psicológica num outro momento (quinze dias após a
data da primeira consulta médica, porque coincidia com o dia marcado pela
medicina para o retorno da primeira consulta).

A entrevista inicial é feita pelo o graduando, acompanhado do profissional
responsável pelo caso em uma sessão única que teve o tempo de duração de uma
hora aproximadamente. Essa entrevista tem a proposta de colher dados gerais do
sujeito com o objetivo de complementar os dados médicos.
Após a entrevista seguem-se as sessões iniciais de avaliação e tratamento que
tinham a duração de uma hora e foram planejadas, preferencialmente, a cada
quinze dias, já que este era o período considerado adequado para o caso e este
era o espaço de tempo que o doente vinha ao hospital para consultas médicas.
Eventualmente, aconteceu do paciente vir uma vez por semana quando se sentia
que era necessário para melhor andamento do tratamento. Nas sessões iniciais
buscou-se uma melhor socialização e gerenciamento inicial dos sintomas, em
seguida, procurou-se a restauração do humor do sujeito, eficácia na resolução dos
problemas emergenciais e melhorar as habilidades e recursos cognitivos e
comportamentais. O tratamento encontra-se atualmente em fase de fechamento,
monitoração e prevenção de recaídas que deve se dar nas próximas sessões.
3.1.4. – RESULTADOS:
História da Doença
A cefaléia na região periorbital e frontal direita começou há dois anos e era tão
intensa que o incapacitava para o trabalho. Apresenta ainda alterações de humor,
atividade e apetite (refere ter emagrecido 5 quilos nos últimos dois anos). Além
disso, sente dores no ouvido direito, com perda da: acuidade visual, fotofobia,
lacrimejamento dos olhos. Há cinco meses essas dores deixaram de melhorar com
a medicação. Tem crises diárias desde o início e já houve caso em que teve que
parar de trabalhar por quinze dias por causa das dores.

Após as crises sente parestesia de todo o couro cabeludo e do braço direito.
Inchaço de lábios e olhos, tontura, diarréia e pontadas na região lombar direita que
aparece e melhora espontaneamente. É freqüente ter dores de madrugada
chegando a acordar por causa da dor.
Relata hábitos irregulares de trabalho, alimentação e sono. É fumante desde os oito
anos de idade e atualmente consome um maço e meio de cigarro por dia. Relata
ansiedade e a dor aumenta quando fica nervoso.
Medicação
Amitriptilina 50mg – 1comprimido à noite
Amplictil 4% – 10 gotas à noite
Indometacina 25mg – 1 comprimido de 12 em 12 horas
Omeprazol 20 mg – 1 comprimido ao dia
Diagnóstico Clínico
Cefaléia Crônica Diária
Observação
Ficou marcado o retorno para a consulta médica e a entrevista psicológica inicial.
A – Entrevista Inicial:
O caráter didático da Liga de Dor permite que os estudantes de psicologia
acompanhem os atendimentos médicos, desde a chegada dos doentes de dor na
Liga. Essa observação é importante tanto para o aprendizado desses estudantes,
como para o auxílio na identificação dos doentes que mais necessitam de
atendimento psicológico.

A partir dessa identificação, os estudantes de psicologia da Liga, acompanhados de
um profissional responsável, faz uma entrevista semi dirigida onde os objetivos são:
o de obter um panorama geral do quadro do doente, sem o aprofundamento de
nenhuma das áreas específicas do indivíduo; e avaliar a adequação do mesmo
para uma psicoterapia. O sujeito em questão formou um bom vínculo com o
estagiário de psicologia desde o atendimento médico.
O graduando julgou necessário e sugeriu uma avaliação psicológica que foi aceita e
realizada posteriormente. O paciente foi encaminhado pelo graduando de psicologia
porque, nos atendimentos médicos, relatou estar sem vontade de fazer nada e falou
sobre o suicídio do pai.
Dados da Entrevista Inicial
A.E.Z.C. é homem, 43 anos, chileno, vive no Brasil já há mais de 18 anos. Está no
terceiro casamento e possui três filhos, sendo que dois moram com ele. O
diagnóstico foi o de cefaléia crônica diária intensa.
Escolaridade superior incompleto em informática, atualmente trabalha como
autônomo dando aulas e assistência técnica em empresas e particulares. Fumante,
diz que fuma um maço e meio de cigarro por dia. Refere nunca ter feito nenhum
tratamento psicológico ou psiquiátrico anterior.
Com relação às mudanças no seu estilo de vida desde que a cefaléia começou,
houve diminuição do apetite, perdeu 5 quilos até o momento. O sono ficou mais
difícil, chegando a tomar remédios para dormir. Atualmente não está mais se
utilizando dessa medicação porque a falta de sono tem melhorado.

Durante as crises não consegue se concentrar em nada. Fica difícil sentar, deitar,
caminhar e perde o equilíbrio muito facilmente. Não tem vontade de conversar, ver
televisão, realizar qualquer tarefa doméstica, manter relações sexuais ou carregar
objetos. A dor afeta o seu relacionamento familiar porque não tem paciência com
eles. Quando ele está com dor, não costuma participar das atividades de lazer.
A sensação dolorosa ocorre, em geral, três vezes ao dia e dura em média uns 15 a
20 minutos. O período das três às quatro horas da madrugada costuma ser o
período em que a dor aparece com mais intensidade. Diz que fica nervoso por não
conseguir fazer as coisas por causa da dor. Faz de tudo para não ser um fardo para
os outros. Lembra das coisas que gostava de fazer, mas não consegue como, por
exemplo, tocar violão.
Escala Visual Analógica
VAS = 8
B – Avaliação Psicológica:
Esta avaliação se deu depois de quinze dias da primeira entrevista e um mês
depois da primeira consulta médica na Liga. Vale aqui ressaltar, que durante esse
período ocorreu uma piora do quadro álgico (primeira VAS = 8 e depois VAS = 10),
como consta no protocolo médico. Inicialmente, como havia ficado combinado, o
doente passou primeiro na consulta médica, vindo para a avaliação psicológica,
logo em seguida da mesma. Essa é uma prática bastante comum dentro da Liga de
Dor, como uma forma de facilitar o fluxo dos atendimentos. Foi realizada apenas a

verificação do humor, já que a avaliação da intensidade da dor é sempre feita a
cada consulta médica.
Para a verificação do Humor foram utilizados os seguintes instrumentos:
BDI = 16 (depressão moderada)
BAI = 18 (alto grau de ansiedade)
BHS = 2 (desesperança leve)
História De Vida
A.E.Z.C. é o terceiro filho de sete irmãos. Toda sua família mora no Chile e só ele
encontra-se no Brasil. Sua mãe tem boa saúde e seu pai faleceu. Refere que seu
pai suicidou-se com um tiro na cabeça aos 47 anos por causa da dor de cabeça.
Quando o pai morreu, ele era para ele o super-herói. Foi um choque muito grande.
Saiu do Chile há 18 anos para vir morar no Brasil, inicialmente veio para morar com
um irmão que já trabalhava aqui. Esse irmão voltou para o Chile e ele ficou aqui.
Não se adaptaria mais no Chile porque gosta muito do Brasil.
Passou muito tempo morando ilegalmente aqui no Brasil e enfrentou situações de
muito medo porque quando a polícia o descobria, tinha que subornar os policiais
para ser solto. Muitas vezes apanhava muito na prisão e tinha medo de ser
deportado.
Foi casado pela primeira vez no Chile e ficou casado por três anos. Conseguiu
anular seu primeiro casamento porque já estava fora do País há muitos anos. O
segundo casamento foi aqui no Brasil e durou quatro anos.

Separou-se a treze anos de seu segundo relacionamento e atualmente encontra-se
casado pela terceira vez há 12 anos. Tem três filhos, um de cada casamento. Tem
uma filha de 22 anos que mora no Chile com a primeira esposa. Ela é muito
chegada, apesar da distância (sic).
Fez um breve um relato breve da queixa principal (cefaléia) e depois explorou-se as
diversas áreas de vida do paciente (familiar, profissional, social, sexual,
autoconceito). Além disso, buscou-se esclarecimento sobre as expectativas do
paciente com respeito a terapia, verificou-se a adequação do caso para o modelo
de terapia cognitivo e informou-se o paciente sobre os detalhes do processo
terapêutico que estava sendo oferecido, instruindo-o sobre o modelo cognitivo.
Foi dado o feedback ao doente no final, e ele foi instruído a respeito do que é
cefaléia, que é um tipo de dor crônica, que a dor é uma percepção que envolve
aspectos cognitivos, afetivos, comportamentais, sociais, que existe a demanda de
tratamento médico e não-medicamentoso a médio e longo prazo, que a cefaléia
pode impedir determinadas atividades até incapacitar, quando não tratada
adequadamente e sobre as implicações familiares, profissionais e sociais que elas
acarretam.
Após as informações serem passadas para o indivíduo e ele ter concordado com o
processo psicoterapêutico proposto, fez-se um resumo da sessão de avaliação
inicial e programou-se os atendimentos seguintes junto com o doente.
Aspectos Sensitivos

A.E.Z.C. relata dor diária na região frontal com exaltação de veias temporais,
fotofobia que piora com ruídos. As crises são incapacitantes e acompanhadas de
tonturas e perda da acuidade visual, principalmente do lado esquerdo. A dor ocorre
três vezes ao dia: de madrugada (3 a 4hrs da manhã), logo que acorda e à noite.
Ela dura uns 15 a 20 minutos e depois melhora.
Na Escala Visual Analógica (EVA), A.E.Z.C classifica sua dor como de intensidade
10 (máxima ou a pior dor possível).
No Questionário de Dor McGill (QDMG), a dor se localiza na região frontal e,
principalmente, do lado esquerdo, embora também a sinta do lado direito. São
dezesseis descritores utilizados pelo doente, sendo sete descritores sensoriais
(latejante, em lança, estralhaça, fisgada, queimação, pesada e rachando), seis
adjetivos de conteúdo afetivo (exaustiva, enjoada, cruel, maldita, mortal e
enlouquecedora), um descritor de caráter avaliativo (insuportável) e dois de
miscelânea (congelante e torturante).
Aspectos Comportamentais
A.E.Z.C. relata passar muito tempo no computador, sendo viciado em jogos e
ficando até altas horas jogando. É fumante desde os 8 anos, apresentando um
comportamento ansioso com relação a esse vício. Atualmente, fuma mais de um
maço de cigarros por dia.
Quando está com dor, busca o isolamento, não quer que ninguém fale com ele e
não fala com ninguém, até melhorar. Fica bastante irritado com todos e com tudo.
Sempre que está com dor, procura ficar no escuro.

Algumas vezes perde o equilíbrio quando sente dor. Sua alimentação é desregrada,
relatando que não come quando sente dor.
Durante a entrevista psicológica observou-se contrações faciais que indicam
comportamento doloroso. O doente informou que não estava tomando a medicação
prescrita na última consulta, porque não havia conseguido os remédios na farmácia.
Aspectos Afetivos
A.E.Z.C. mostrou alto grau de ansiedade na entrevista, confirmado pelo BAI
manifestada principalmente através de tremores nas mãos, desconforto no
abdômen, medo do pior, inquetude, incapacidade de relaxar e nervosismo.
O BDI e a entrevista apontam para uma depressão moderada, com diminuição da
energia, do prazer e interesse pelas coisas, sentimentos de culpa, agitação e
dificuldade de concentração, comprometimento do padrão do sono, um excessivo
cansaço, irritabilidade, além do aumento da auto-crítica e sentimentos de menos
valia.
O BHS, porém, demonstra que sua esperança está preservada, indicando que,
apesar de sua condição de saúde atual, suas expectativas com relação ao futuro
são positivas e otimistas.
Aspectos Cognitivos
Apresenta pensamentos catastróficos como e tem medo de que aconteça com ele
o que aconteceu com seu pai que se suicidou por causa das dores de cabeça (sic).
Acredita que a equipe de saúde vai resolver seu problema de dor, mas que vai
depender da medicação o tempo todo. Tem medo de se tornar um peso para a
família por incapacidade física.

Aspectos Psicossociais
Família: o relacionamento familiar estava bastante comprometido uma vez que
ficava sempre irritado, nervoso e agressivo quando tinha dor. Buscava isolar-se e
evitava qualquer forma de contato, perdendo o prazer sexual e apresentando
ataques de fúria por qualquer motivo. Posteriormente sentia culpa por esses
ataques, apresentando medo do que pudesse fazer de mal para eles. Desta forma
isolava-se da família e do convívio social.
Ocupação: ficou alguns dias sem trabalhar, pois a dor estava insuportável. Como
trabalha como autônomo, também ficou sem ganhar e tudo ficou mais complicado.
Voltou a trabalhar, mas não está ainda cumprindo todos os seus compromissos
profissionais, pois não tem paciência ainda para dar aulas, atendendo apenas
quando é chamado de empresas para arrumar os computadores.
Lazer e Social: não sai de casa para lugar nenhum, porque não tem vontade. Não
consegue assistir TV e nem tem nem tocado violão, pois a dor lhe tira a vontade. Só
fica no computador jogando.
IV-3. Planejamento de Intervenção:
Na fase inicial, irá se trabalhar a área de saúde que seria a mais urgente no
momento. Para uma melhor compreensão e convivência com a dor, procurará
abastecer o indivíduo com informações sobre o modelo Psicoterapêutico Cognitivo

Comportamental e sobre cefaléia crônica diária, fatores desencadeantes e
conseqüentes de dor e o uso de medicamentos preventivos.
Procurando instrumentalizar o doente para que ele se sinta mais seguro para a
administração da dor crônica, serão ensinadas técnicas como: respiração
abdominal, relaxamentos, desvio de atenção, aumento e flexibilização das
alternativas de enfrentamento. Com isso, pretende-se também minimizar os níveis
de ansiedade do doente, e aumentar sua motivação para o tratamento.
Na fase intermediária as intervenções serão feitas para que o doente possa analisar
suas próprias associações entre o pensamento, emoção e os comportamentos que
fazem perpetuar os sintomas da cefaléia, tentando-se substituir os comportamentos
que podem desencadear crises de cefaléias (fumo, alimentação e sono irregulares)
por aqueles que podem preveni-las.
Tratar-se-á a depressão e a ansiedade ligadas à dor, buscando melhorar o humor e
a agressividade do doente. Este se mostra pouco assertivo, comprometendo sua
área afetiva e seus relacionamentos sociais. Nesta fase pretende-se melhorar a
comunicação familiar através do treino da assertividade, melhorando assim, o
interrelacionamento entre eles.
Além disso, procurar-se-á envolver a família no tratamento, diminuir a ingestão de
medicamentos analgésicos e trabalhar-se-á as cognições e emoções ligadas à
cefaléia.
Na fase final, procurou-se o estabelecimento de pensamentos, emoções e de
atitudes comportamentais mais adequadas em todas as suas áreas de vida com a
reestruturação cognitiva desse sujeito, treinamento da confiança, fomentando
expectativas realistas e a prevenção de recaídas.
C – Tratamento e Discussão:
Analisando-se junto ao paciente sobre os eventos que antecedem as crises de
cefaléia e os conseqüentes, A.E.Z.C constatou que a dor reforçava sua crença de
que o pior pode acontecer e pensamentos catastróficos (se matar como o pai,
expulso do país, traído pela esposa). Foi possível a identificação da raiva, do medo
que sentia, da ansiedade e depressão que esses pensamentos traziam. Como
padrão comportamento, utilizava a dor, o isolamento e evitação social, além da
agressividade e nervosismo.
Após o tratamento ter sido iniciado, as crises de cefaléia diminuíram tanto em
quantidade, como em intensidade. A.E.Z.C foi aos poucos normalizando sua rotina
diária e retomando seus relacionamentos de uma forma mais satisfatória. Pode
retornar a atividade de dar aulas de informática, o que antes era impossível e o
relacionamento familiar e afetivo passou a ser mais assertivo. Estava mais
empenhado na divulgação dos seus serviços e passou a usar a medicação
segundo a orientação médica.
3.1.5.- CONCLUSÕES

O caso ilustra bem como uma dor pode incapacitar e a importância do trabalho
psicoterapêutico Cognitivo Comportamental para o tratamento da cefaléia crônica
diária. Os aspectos da educação em saúde desse tipo de abordagem minimizam as
crenças distorcidas a respeito da doença e informam adequadamente o doente
sobre o seu aparecimento, curso e tratamento da mesma. Além disso, elas ajudam
na aliança terapêutica na medida em que favorece uma relação de confiabilidade, o
que faz com que aumente a motivação para as mudanças necessárias ao
tratamento.
As avaliações de humor permitem ao psicólogo acompanhar a evolução do
tratamento de forma objetiva e traçar novas metas para resolução dos problemas.
O sujeito é orientado a identificar situações-problema, pensamentos disfuncionais,
erros cognitivos, emoções desagradáveis e comportamentos desadaptativos.
Sâmia Aguiar Brandão Simurro
3.2.- Intervenção Psicológica Baseada na Relação Mãe-Bebê de Winnicott e
Psicossomática
3.2.1- INTRODUÇÃO
Enquanto procurava uma definição sobre o binômio saúde/doença tive uma
experiência de atendimento que me trouxe essa reflexão:
Onde começa a saúde e termina a doença?
Ou uma se complementa com o outra?
Até que ponto a saúde é doença e a doença é saúde?
Estranho pensar em saúde como doença e doença como saúde!

Uma menina de apenas sete meses de idade, repetidas vezes teve de retornar ao
hospital onde nascera, para restabelecer seu estado de saúde, pois ora se
apresentava com icterícia , ora com gripe, ora com pneumonia, até chegar ao
ponto de levantarem a hipótese de ser necessária a retirada de um pedaço de seu
fígado para se fazer uma biopsia, pois esse se apresentava crescendo de tamanho.
3.2.2- RESUMO DO CASO
Esta criança é a 3ª filha do casal, o irmão mais velho tem 19 anos e a irmã 15 anos;
foi gerada, num encontro dos pais , quando os mesmos estavam separados fazia
16 meses, e o pai se encontrava amasiado com outra mulher. Já neste primeiro
encontro, veio a gravidez.
A mãe relatou que quando soube da gravidez ficou apavorada, com vergonha dos
filhos e principalmente de seu irmão mais velho que considerava como pai, tinha
muito medo do que iriam pensar, e que não conseguiria reatar o casamento, uma
vez que o ex-marido não acreditava nela, e ainda a culpava de tê-lo traído ( coisa
que não assumiu ). Disse que chegou a pensar em abortar, porque se sentia muito
só. Passou a gravidez tentando uma reaproximação, mas as vezes que se
encontraram, somente tiveram relações sexuais, com nenhuma possibilidade de
retorno. Coisa que vem acontecendo até hoje.
Ficou sabendo recentemente que a atual mulher do marido está grávida.
Comentou que sente medo do ex-marido, pois já apanhou dele e sabe que ele
bateu em outras companheiras e que bate na atual, mas não sabe por que ainda se
sente presa a ele, é só ele chamar que ela vai correndo.

Quando foi para a maternidade para ter sua filha, somente sua cunhada a
acompanhou e a ajudou, a mesma que acompanhou no nascimento dos outros
filhos, pois o ex-marido, nunca esteve presente. Relatou que quando se viu só com
a filha no quarto, ficou apavorada, não sabia o que fazer: como pegá-la, tratar dela
e amamentá-la. Nem o nome sabia escolher, chegou a chamar a filha por três
nomes, escolhendo o último, que vamos chamar de “Vivi”.
Quando saíram da maternidade, já em casa, começou a perceber que Vivi estava
muito amarela, e como já havia passado pelo mesmo sintoma no nascimento dos
outros filhos, reconheceu que era icterícia e voltou com Vivi para o hospital. Ela
ficou internada por alguns dias, voltou para casa e começou a apresentar novas
doenças cada vez piores, ficando num ir e vir constante e sempre se sentindo só
nestas horas.
Relatou que, quando precisou voltar a trabalhar, sua filha mais velha passou a
cuidar de Vivi. Só vê a filhinha à noite, quando volta do trabalho. Relatou que tanto
o marido como as outras pessoas vivem dizendo que não entendem como Vivi
adoece tanto, pois tem aparência de um bebê gordinho e saudável.
Diante deste relato, pude perceber o quanto esta mãe está mais envolvida com o
ex-marido do que com seu bebê que necessita tanto de sua atenção,
principalmente nesses primeiros meses de vida.
Comecei a questionar:
O que estaria representando essa “aparência saudável”?
Estaria no lugar de quê? Para dar conta de quê ou quem?

Em qual lugar estaria Vivi, uma vez que essa mãe havia depositado tanta
expectativa de retorno do marido?
Até que ponto demonstrar saúde não seria um tipo de “máscara” para se proteger
da fragilidade dos que cuidam dela e assim poder ter alguma atenção?
A doença não seria então sinal de saúde, apresentando-se como uma defesa
contra a possibilidade de uma sensação de “colapso”, “aniquilamento”?! Uma
possibilidade de significar o impensável, mesmo porque o aparelho psíquico nem
bem formado ainda está para conceber e dar significados?
Aqui se apresenta o ser humano se agarrando a todas as possibilidades de
continuar a ser, procurando existir, ora através de uma aparência saudável, ora
através de um corpo doente, que falam o que ainda não pode ser dito. E que da
maneira que é visto e, por quem é visto; será entendido!
Cheguei a conclusão de que, nesse momento , quando não se pode significar ,pois
o aparelho psíquico não está ainda formado para tanto, o corpo pode expressar o
que está sentindo, e é isso o que está acontecendo com essa bebê de sete meses !
E é aqui que fica clara a afirmação de que somos seres psicossomáticos!
3.2.3- PROCEDIMENTOS
Retornando ao atendimento, combinei com a mãe nos encontrarmos para
buscarmos juntas uma maneira de melhorarmos a relação mãe/bebê, procurando
resgatar na mãe a preocupação materna primária , estado este que, D. D.
Winnicott nos apresentou como de extrema importância para o desenvolvimento
emocional, e no qual acredito .

Em nossos encontros, pude dar atenção aos anseios da mãe, transmitir alguns
tratamentos, como a técnica do “Shantala”, onde enfatizei a importância de se
preocupar em estar inteira com a filha, sem se importar em fazer corretamente os
movimentos da massagem.
Procurei transmitir também a importância de a mãe conversar com Vivi , no
sentido de transmitir o quanto a amava, o quanto ela era importante por
simplesmente existir, e que se algum dia havia passado a ela o compromisso de
trazer seu pai de volta para casa , a partir de agora poderia se considerar livre ,
pois esse entendimento cabia somente aos pais, se algum dia fosse possível o
retorno.
Em cada encontro, fui percebendo que a mãe se tornava mais confiante em cuidar
de Vivi, demonstrava prazer quando falava da filha, dos momentos que ficavam
juntas, e que passou até a observar e se preocupar mais com os outros filhos
também. Aprendeu até a dar carinho, coisa que sentia dificuldade.
3.2.4- RESULTADO
Quando chegou o momento de retornar ao hospital para fazerem a biópsia, orienteia
no sentido de pedir antes outra ultrassonografia, pois acreditava que com a
atenção que ela havia dedicado durante este tempo à Vivi, poderia ter diminuído o
tamanho de seu fígado e sendo assim não seria necessária a retirada de um
pedaço do mesmo para a biópsia.

Ela assim o fez e os médicos ficaram impressionados com a melhora de Vivi, não
precisou fazer a biópsia.
3.2.5- CONCLUSÃO
Concluí que a partir do momento que a mãe se sentia cuidada por mim, podia
também cuidar. Winnicott nos mostra claramente a importância dos cuidados do
“ambiente” à essa pessoa que começa a ser mãe, que compreende cuidados do
marido ou pessoas que convivem com ela, para que a mãe possa se dedicar única
e exclusivamente aos cuidados do bebê que acaba de chegar.
Este atendimento veio me confirmar a importância de buscar um conhecimento
maior para entender esse ser tão complexo chamado “ser humano”. E pude
compreender melhor alguns pontos deste caso, pois estou aqui, conhecendo a
Psicossomática que me leva a entender o ser humano em sua totalidade bio-psicosocial.
Sônia Maria Estácio Ferreira
3.3.1.- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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