A CONTRATRANSFERÊNCIA E AS ORIGENS DA TÉCNICA PSICANALÍTICA

A Contratransferência e as Origens da Técnica Psicanalítica *

Luiz Eduardo Prado de Oliveira

trad. Angela Leitão–Heymann

rev. Ana Maria Andreoni Rolim

Entre Sabina Spielrein, Freud e Jung, por um lado, entre Gizella e Elma Pálos, Ferenczi e Freud, por outro, tudo parece já ter sido estudado. A análise de Anna Freud por seu pai, assim como as conseqüências desta análise para a elaboração dos fundamentos da técnica psicanalítica, ao contrário, ainda não foram francamente abordados. Alguns avanços importantes para a compreensão da contratransferência ainda restam ser feitos. O relato de alguns momentos de uma cura analítica podem nos ajudar a tanto.

Uma das particularidades mais marcantes da psicanálise é que neste campo “o exemplo é a coisa mesma”, como assinala Freud seguindo uma corrente de pensamento cuja fonte encontra-se em Hegel. Antes de abordarmos o “caso” comunicado ou que comunicamos, devemos considerar atentamente o fato de que a comunicação do caso já é por si só um “caso”. Nesta perspectiva, toda contratransferência é “leitura” singular da transferência que a induz, tal como é por ela induzida. A psicanálise certamente ganharia em considerar os “casos” Sabina, Gizella, Elma, Anna e tantos outros como outros tantos “casos” que fundam sua história e que obedecem à sua própria lógica discursiva. Os psicanalistas ganhariam em não dissociar a história destes casos e a comunicação dos mesmos. O agieren, o ato, não é uma recusa da transferência. Pelo contrário, é uma das suas modalidades. Proponho exemplo.

Maria e as lantejoulas

Já há alguns anos ela vem às suas sessões. Regularmente, chuva ou sol, chega à hora marcada. A cabeça ligeiramente inclinada esconde seu olhar, as mãos entrelaçadas na altura da cintura, ela cruza meus tapetes e se prepara no divã para a sessão. Fala de dificuldades com o filho, de alegrias com a filha, de dificuldades com a empregada a quem gostaria de ajudar, de enormes dificuldades com o marido, de quem ela não gostaria de se separar sem entender por que. Por vezes, menciona uma lembrança da infância suficientemente anódina para não ameaçar sua minuciosa construção. É uma análise elegante, lisa, segura de si, previsível, sem surpresas.

A análise prossegue já há algum tempo. Sua vida mudou bastante. Regularmente, outono ou primavera, ela comparece à hora marcada, pontual. A cabeça ligeiramente inclinada escondendo o olhar, as mãos entrelaçadas abaixo do umbigo, a passos tímidos atravessa a sala para começar a sessão. Fala da psicanálise do filho, da felicidade que a filha lhe traz, das dificuldades com o empregado que poderá, no entanto, ajudá-la caso ela se separe do marido, a decisão já está quase tomada, já não têm mais nada a dizer um ao outro. Sua vida profissional é empolgante, as relações com a irmã gêmea mais cordiais, convenceu até uma outra irmã a começar uma análise. Ela considera evidente ter dificuldades sexuais, já que descobriu sexo no sítio dos pais, vendo os bichos e, mais tarde, com os empregados do pai que lhe ofereceram dinheiro em troca de um beijo, de uma carícia. Ela nunca disse nada a ninguém.

É uma análise comovente que segue seu curso ofegante. Nunca falta às sessões, quatro vezes por semana, cinqüenta minutos. A cabeça inclinada, sua nuca à mostra, ao passar por mim, a passos firmes, lança-me um olhar. Chega a me imobilizar, tanto parece imóvel, apertando com força seus braços cruzados em baixo dos seios. Diz ter decidido procurar um amante, “onde quer que seja, entre os conhecidos”. Faz tudo o que pode para isto, empregando todo o seu poder de sedução. Não suporta mais o pensamento que a tortura: só um severo castigo poderá levá-la ao êxtase. Ela não percebe bem que castigo, mas só pensa nisso, desde que uma lembrança invadiu vitoriosamente seu coração. Entrara no quarto de seus pais e vira o pai nu. Seu olhar acompanhou o dela e ele lhe deu um tapa no rosto. Ela nunca o perdoara. Hoje, a pergunta. Por quê teria entrado naquele quarto? Não sabia que seu pai estava sozinho? Sua mãe ia sempre encontrar o amante. Nem disfarçava ou escondia. A partir deste tapa, toda vez que podia evitar um carinho no rosto, ela o fazia. Como se fosse preciso que seu rosto se mantivesse puro, imaculado de qualquer contato estrangeiro ao da mão de seu pai. E, agora, esta idéia de castigo.

Penso com desprezo no hábito de dar tapas no rosto de uma criança ao invés de dar umas palmadas. Meus fantasmas são vivos, coloridos, imagino-me dando-lhe palmadas. Penso com desdém em Jung e Ferenczi que não resistiam às pacientes. A imagem persistente do contraste entre o rubor e a brancura da carne marcada pelas palmadas me faz decidir suprimir com vigor todo pensamento contratransferencial. Mas já não seria castigo bastante minha maneira abrupta de interromper a sessão e acompanhá-la até a porta do consultório? E esta violência, será que ela pertence à esfera do que estas imagens despertam em mim ou à esfera do que me leva a suprimi-la?

É bem possível que ela tenha adivinhado meu transtorno e que tenha procurado irritar-me, atrasando-se. A exuberância deste dia ensolarado de começo de primavera ajuda a me tranqüilizar. Até agora, a análise foi excelente. Não vou atrapalhá-la. Alguma coisa acontecera, quem sabe ela encontrara um amante, visto a intensidade e a firmeza do seu olhar no meu, ao jogar a cabeça para trás, quando entrou triunfante no consultório.

– “Meu marido tem razão”, disse ela sorrindo. “Eu devia ter feito política. Nasci para fazer parte dos eleitos. Menina, na igreja, eu ficava deslumbrada com o brilho da luz nos vitrais. Parecia lantejoulas. Era o olhar de Deus. Eu me dizia que, se brilhassem assim ou assim, isto queria dizer que Deus me elegera e que eu o veria sentado à beira da minha cama, mais tarde. E eu esperava por Ele horas a fio. Mais tarde, cansei”.

– “O brilho do olhar dos homens que você seduz, lantejoulas” sugiro, elíptico, contente de mim.

Ela se deslumbra, sorrindo. – “Mais tarde, foi o Príncipe Encantado. Eu esperava por ele a cada esquina. Repare, já era um progresso. Eu o procurava inclusive na igreja, aos domingos ou em outras ocasiões. Os vitrais, nunca mais”. Seu riso cristalino invadiu o consultório. Penso nas maçãs envenenadas e nos bosques adormecidos. Uma deliciosa sensação de calor toma conta de mim.

Venci minha contratransferência, ela poderá continuar sua elaboração edipiana, voltando a ter uma relação melhor com o marido.

Cada etapa desta cura prepara a seguinte e a transcende. Da constatação clínica à emoção, da emoção ao fantasma e deste à alteração real da percepção da realidade, a fronteira entre imaginação e ato diminui. No entanto, vencedor, fui vencido exatamente consolidando minha vitória? Um certo ato erótico foi evitado, talvez por um triz, mas outros erotismos integram o ato de escrever ou a comunicação do “caso” que se tornou modalidade do agieren .

O ato

A perspectiva que adoto exclui a possibilidade de consideração de um “ato psicanalítico”. Mesmo se um dos fundamentos da psicanálise é a possibilidade de compreensão do ato enquanto manifestação do pensamento e mesmo implicando inúmeros atos, ela não é ato, mas pensamento e, precisamente, pensamento metapsicológico. Freud o define: só uma abordagem metapsicológica de qualquer fenômeno é propriamente psicanalítica. Convém compreender tal abordagem como adotando, ao mesmo tempo, uma perspectiva tópica, uma perspectiva dinâmica, uma perspectiva econômica e, enfim, uma perspectiva genética. Só a adoção desta quádrupla perspectiva permite a exaustão da combinatória latente na articulação do imaginário, do simbólico e do real. Por outro lado, abandonada a abordagem metapsicológica, o psicanalista sempre se encontra mergulhado no ato, seja qual for sua natureza: estabelecimento do número de sessões por semana, de sua duração, de seu preço, da modalidade de pagamento, do que fazer em caso de ausência às sessões ou outras transgressões de ambas as partes ao acordo de base, ou seja, à associação livre e à atenção flutuante, sobretudo sem julgamento. A regra da abstinência do psicanalista é essencialmente uma regra de suspensão do julgamento e de busca da compreensão. É a este respeito que Lacan fala da importância de Spinoza para a psicanálise.

Freud nunca condena diretamente, seja Jung, seja Ferenczi, por suas respectivas relações com Sabina Spielrein, Gizella ou Elma Pálos. De Sabina Spielrein, ele recebe o conceito de pulsão de morte. De Ferenczi e Elma Pálos, ele deduz suas observações sobre o amor de transferência, a partir das quais houve quem deduzisse preceitos incisivos. Estas histórias são confusas e dolorosas. Importa compreendê-las. Provavelmente, a maior parte do trabalho necessário a tanto já foi feito .

A postura de Freud em relação a Jung quanto ao assunto é variável. Primeiro, rejeita Sabina e apóia as negações do aluno. Diante das evidências, pede desculpas à jovem paciente e atribui uma falta a Jung, mas, simultaneamente, Freud lhe escreve dizendo que não se sinta culpado, porque a responsabilidade incumbiria à “outra parte”. A palavra “contratransferência”, que surge numa carta de junho de 1909, torna-se conceito por ocasião de conferência pronunciada por Freud no II Congresso Internacional de Psicanálise, em Nuremberg, em fins de Março de 1910. A “pessoa do próprio médico” sofre “a influência do paciente na sua sensibilidade inconsciente”. “A influência do paciente na sensibilidade inconsciente do médico” atua na “pessoa do próprio médico”. Para dominar esta contratransferência, ele tem que recorrer constantemente à auto-análise. “Qualquer um que falhe em produzir resultados numa auto-análise desse tipo, deve desistir, imediatamente, de qualquer idéia de tornar-se capaz de tratar pacientes pela análise” . Trata-se da conquista teórica mais importante realizada por Freud a partir desta experiência, no que diz respeito à técnica psicanalítica. A compreensão da incidência da contratransferência sobre a transferência ainda não é possível, a articulação entre uma e outra, do ponto de vista metapsicológico, ainda não pode ser feita.

É justamente esta compreensão do ponto de vista tópico, econômico, dinâmico e genético, portanto, genuinamente metapsicológica, que propõe Sabina ao se esforçar em esclarecer sua história de amor com Jung. A partir de suas anotações – em seu diário, em suas cartas, em seus artigos –, surge uma representação clara do que está em causa no ato contratransferencial.

A situação analítica, já pelo seu dispositivo, pelo que ela vai mobilizar nos dois protagonistas da cura, é fundamentalmente objeto de fortes investimentos narcísicos como de poderosos movimentos regressivos, que vão se manifestar em diferentes espaços tópicos para cada um dos participantes, em diferentes momentos segundo diferentes princípios econômicos ou dinâmicos. A meta essencial da técnica analítica é o bom desenvolvimento destes investimentos narcísicos, que se transformam em relações significantes, a preservação e, por fim, a atenuação; eventualmente, a dissolução ou a sublimação dos mesmos.

O ato erótico ou afetivo, como o agressivo ou hostil, contraria estes investimentos. O narcisismo dos dois atuantes rompe-se brutalmente nestes casos. Cada qual é atingido em seus ideais mais investidos. Um verdadeiro desmantelamento do aparelho psíquico se produz, comparável às figuras da loucura específicas à paixão amorosa quando esta é invadida pelo ódio.

Sabina Spielrein esboça o conceito de pulsão de morte e as premissas da noção de indiferenciação. O aparelho psíquico dos dois parceiros também se torna indiferenciado. A “transmissão de pensamento” torna-se evidente para ambos. As representações relativas a diferentes lapsos de tempo se superpõem, brotando umas das outras. As coisa ditas já foram ouvidas, o que se sente já foi vivido. A experiência do corpo do outro remete a outros corpos, a experiências homossexuais ou de descoberta do próprio corpo. A indiferenciação atinge igualmente os marcos significantes da cadeia “transgeracional”, da sucessão implacável das gerações. Os antepassados invadem a experiência atual, os mortos irrompem entre os vivos.

Se uma lição de ética pode ser formulada, é a que Freud dá a Sabina quando lhe escreve: “Não se imponha nenhuma obrigação, mas seja a fundo pelo que decidir”.

Confusões

A atenção dedicada ao que está em causa do ponto de vista metapsicológico no ato é essencial ao entendimento das modalidades de transferência, como da cura psicanalítica, que frustra o transbordamento repetitivo do agieren. Na falta desta compreensão, a repetição se instala. Mais tarde, Jung terá outra paciente como amante. A repetição deste ato também se inscreve no núcleo do movimento psicanalítico, na medida em que o ato não é abertamente analisado, mas continua a pertencer à esfera da reprovação moral. Assim sendo, esta reprovação “politicamente correta” despreza os fatos que, em conseqüência, se reproduzem e alastram.

Pode-se dizer que o “caso” Sabina durou, por assim dizer, de 1904, ano em que a jovem paciente foi hospitalizada no Burghoslzli, a 1923, quando Freud lhe escreve pela última vez. Mais precisamente, a fase “escandalosa” ou “aguda” vai de março de 1909, quando Jung escreve pela primeira vez a Freud a respeito de seus problemas com uma paciente, até o mês de outubro de 1911, quando Sabina é admitida na Sociedade Psicanalítica de Viena, após ter apresentado o texto A destruição como causa do devir.

Pouco antes, em Julho do mesmo ano, Ferenczi comunica a Freud que iniciou a cura de Elma, filha de sua amante Gizella, que já fora sua paciente antes e que continua casada com Géza Pálos . O que desaparece aqui, reaparece ali. O que desaparece ou se atenua na relação existente entre Freud, Sabina e Jung, ressurge com força na relação que se estabelece entre Freud, Elma e Ferenczi. Freud mantém, com raras exceções, o humor e a paciência. Sua ciência não só se inspira de Sófocles ou Shakeaspeare, mas também de Molière ou Marivaux. É o preço a pagar – normal e, afinal, muito humano – por nossas mais importantes conquistas.

Em janeiro de 1910, Freud parece resumir a Ferenczi sua posição na época, pelo menos em particular: “A verdade é apenas o objetivo absoluto da ciência, mas o amor é um objetivo da vida totalmente independente desta, e conflitos entre estas duas grandes potências são perfeitamente concebíveis. Não creio que seja necessário subordinar uma à outra, regularmente e por princípio”.

O humor de Freud não cede à exasperação diante dos tateamentos do aluno, em momento algum o tom cômico cede ao trágico, ou mesmo ao tom dramático ou moralizador. Os exemplos que tecem o texto de Freud de 1910, no qual surge o conceito de contratransferência, e aqueles que tecem o texto de 1915 sobre o amor de transferência mostram-no, ao comparar os psicanalistas a médicos turcos, a ginecologistas, a químicos ou ainda a um vendedor de apólices de seguro junto a um moribundo ou a cães de corrida atrás de uma feminina salsicha.

Esta confusão começa por volta de 1908, quando Ferenczi escreve a Freud pela primeira vez, época na qual ele já analisa aquela que se tornará sua amante, Gizella. Nem mesmo a morte de Ferenczi impõe um termo ao caso. O período agudo deste episódio situa-se entre dezembro de 1911, quando Elma invade o coração de Ferenczi – “vitoriosamente pelo que parece”, segundo o que escreve este último –, e Agosto do ano seguinte, quando, após ter feito uma análise com Freud e ter voltado para Ferenczi, entre promessa de casamento e cura psicanalítica, Elma vê sua análise interrompida.

Numa carta de 16 de outubro de 1913, Ferenczi elabora longamente, de um ponto de vista metapsicológico, seu ato (contra)transferencial. O desmantelamento dos investimentos narcísicos ameaçam diretamente o corpo, provocando receios hipocondríacos e manifestações psicossomáticas. A necessidade masoquista de punição por parte do pai é o prelúdio a novos investimentos narcísicos. A conquista da mãe pode servir para criar as condições necessárias ao trabalho de sublimação.

Os elementos oriundos dos trabalhos de Sabina Spielrein e de Ferenczi permitem a compreensão metapsicológica do ato (contra)transferencial. A contribuição particular do texto de Freud sobre o amor de transferência, publicado dois anos mais tarde, é a consideração do amor de transferência como amor verdadeiro. Do ponto de vista da técnica, porém, este texto não parece ir além do que o precede, o de 1910, e que trata do futuro da terapia analítica. Freud volta a afirmar a proibição feita ao psicanalista de ter relações eróticas com seus pacientes, mas esta forma de relação é proibida no exercício da maioria das profissões. O texto de 1915, na verdade, reduz o amor de transferência a uma única figura caricatural, a saber, a da jovem sedutora que conquista seu analista, senhor de certa idade. Além disto, este texto restringe as possibilidades desta sedução à sexualidade – e mesmo à genitalidade – de ambos. Com certeza, Freud referia-se a Sabina e Jung ou a Ferenczi e Elma, mas certamente não a Ferenczi e Gizella.

O que não está resolvido aqui, mas proibido, reaparece acolá. O problema não é tanto o de reconhecer a transgressão de uma lei, mas o de descobrir sob que outra lei se coloca quem a transgride.

Origens

Em 9 de julho de 1913, o “caso Elma” chegando ao fim, Freud escreve a Ferenczi: “Por ocasião do seu aniversário de 40 anos, posso deixar de lado minha reserva habitual e confessar-lhe que a única razão pela qual não lhe desaconselhei energicamente Elma foi unicamente meu receio pessoal de que isto o levasse, segundo um esquema neurótico, a passar, ainda assim, à realização. O que deseja fazer agora? Para cada um de nós, o destino assume a forma de uma mulher (ou de várias) e o seu destino encerra alguns traços preciosos de raro valor … Sabe, cancelei os Emden, este ano, por mais agradável que seja estar com eles, para viver algumas semanas em Marienbad, livre da psicanálise. Minha relação mais íntima será com minha filha mais nova, que se desenvolve atualmente de maneira a tanto me alegrar (certamente adivinhou há tempos a condição subjetiva da Escolha dos escrínios)”.

A auto-análise de Freud permite-lhe entender que Anna é uma das figuras de seu destino, à semelhança de Elma para Ferenczi ou de Sabina para Jung. Freud vive uma verdadeira paixão por sua filha, que se afirma progressivamente e que se prolonga pelo resto de seus dias. Esta paixão tem uma dimensão incestuosa fantasmática, onde o incesto revela-se como proteção contra as pulsões de morte, ao mesmo tempo que as expressa. Devemos também questionar o inconsciente freudiano a respeito dos sintomas que conduzem Anna a uma primeira análise com seu pai entre 1918 e 1922, assim como a uma segunda análise a partir de 1924, interrompida graças às reticências da paciente, já influenciada por Lou Andréas–Salomé.

A importância do que esteve em causa, quanto a este assunto – as “conseqüências desta intimidade, espacial e psíquica”, e a “violência desta promiscuidade” – já foi assinalada .. Acrescento que a “promiscuidade” aumenta quando Freud decide analisar Dorothy Burlingham, amiga muito íntima de sua filha, que, por sua vez analisava os filhos desta mesma amiga.

Com efeito, Totem e Tabu é contemporâneo da Escolha dos três escríniosUma criança é surrada é concomitante ao começo da análise de Anna e também ao seu primeiro texto conhecido, escrito por ocasião de sua admissão na Sociedade Psicanalítica de Viena, isto é, sua tese, cujo caráter autobiográfico é apenas disfarçado e que se intitula Fantasmas de fustigação e sonhos diurnos. Do mesmo modo, Moisés e o monoteísmo é contemporâneo de um outro texto de Anna, O Eu e os mecanismos de defesa . Igualmente, as teses de Freud sobre a sexualidade feminina podem ser questionadas a partir do seu envolvimento passional com sua filha. Duas observações o mostram: Freud traça um paralelo entre sua relação com Anna e sua relação com os charutos e cigarros . Acrescento que se Anna tivesse sido do sexo masculino, teria recebido o nome de Wilhelm. Felizmente, escapou de se chamar Anna Wilhemina ! Claro está que o nome “Anna” tem uma incidência sobre o nome dado por Freud à paciente que o faz “descobrir” a transferência e a psicanálise. Lembro apenas que “Anna” foi o nome de uma irmã de Freud, a única a sobreviver aos campos de concentração. Seu filho – logo, sobrinho de Freud – teve papel de primeiro plano na divulgação da obra do tio nos Estados Unidos. A contra capa de um livro editado neste país exemplifica tais confusões. Escreve o editor: “Sophie Freud – autor, professor, assistente social, mãe, filha e neta de Sigmund Freud…” (grifo eu, perguntando-me se ela era tudo isso ao mesmo tempo). Anna, irmã de Freud, foi casada com um irmão da esposa de Freud, Martha. Imigrados bem cedo para a América do Norte, muito ajudaram financeiramente durante a guerra a família de Sigmund.

Gostaria de assinalar alguns pontos: argüir da banalidade da análise de crianças por seus pais, naquela época, não nos deve fazer esquecer que cada qual fazia o possível para dissimular esta prática. Freud exigia que o fato de analisar sua filha fosse um segredo, tanto quanto Melanie Klein escondia que seus primeiros “pacientes” eram seus filhos. Freud chega a se irritar com Jones, quando este questiona a análise de Anna, mesmo se ele próprio tem muita coisa a esconder. Caso tudo isso fosse tão banal, não teria sido necessário escondê-lo. Do mesmo modo, considerar que naquela época a psicanálise não era como a entendemos hoje, não nos deve dissimular o fato de que ela era exatamente tal como a entendia o seu fundador e seus discípulos. Esconder, manter em segredo, recalcar e suprimir são atos de resistência à análise, aos quais se deixam levar as instituições analíticas.

Os primeiros textos de Freud a encerrar um caráter analítico mais delineado coincidem com o nascimento de Anna. O procedimento psicanalítico presume que o fim do percurso coincida com o desvendar do que o originou. De uma maneira geral, entre o “parto espiritual” e nascimentos reais há correlações. A metáfora do “parto espiritual” encontra-se bastante presente na obra de Freud e em outras. Algumas considerações mais amplas merecem ser feitas.

Perspectivas

Estes procedimentos tiveram conseqüências para a elaboração formal da técnica e da formação psicanalíticas, que se desenvolveram após a Segunda Guerra mundial propondo noções distantes das regras fundamentais estabelecidas por Freud, bastante simples e reduzidas, como a neutralidade, a atenção flutuante ou a abstinência de julgamento. O quadro se resume: uma filha analisada por seu pai, ambos em conflito com uma rival, Melanie Klein, que não só analisou seus filhos, mas também os de seu poderoso protetor, Jones, ele próprio acusando Anna e Freud de maneira a não ver e a não deixar ver o que acontecia na sua vida. Isto não poderia deixar de induzir a idéia de que a mais estrita neutralidade é supremo ideal analítico, como se tal neutralidade não fôsse puro produto do imaginário, com parca inscrição simbólica ou real. A teoria da técnica psicanalítica foi concebida, em grande parte, como uma formação reativa e como um contra–investimento a partir de práticas clínicas e familiares no mínimo invasoras, fruto do medo da solidão e da sede de poder, tanto quanto da imperiosa curiosidade em relação à alma humana .

Os ideais analíticos foram definidos. Após uma longa maturação, estes resultam nas formulações de Bion ou Lacan. Abolir a memória ou desejo , corresponder a um puro significante e ao Outro, ou, ainda, identificar ser e esquecimento , como o demonstrei em precedente artigo sobre o conceito de Outro . Lá onde a psicanálise nascente desvenda o desejo e o sonho, instalam-se hoje grades e matemas.

Segundo estas formulações, a formação psicanalítica é concebida em função da suposta realização de ideais, os quais correspondem à vã ambição da completa dissolução da transferência. O analista que os teria alcançado, tal mirífico mestre zen, isento de memória ou de desejo, não podendo mais exercer nenhum poder, não estaria mais submetido à contratransferência. O ideal de uma ausência total de poder encerra um supremo ideal de onipotência. Mais vale reconhecer o próprio poder, seus limites e utilizá-los da melhor maneira possível !

Estes ideais têm a pretensão também de proteger contra riscos de transgressão. Estes, porém, estão longe de serem sempre e freqüentemente eróticos. Na verdade, as transgressões apresentam-se de diferentes maneiras no decorrer de uma cura analítica. O que lhes é essencial é que não contribuem ao alargamento da consciência do paciente no que se refere à sua compreensão do mundo como representação transferencial, nem à sua capacidade de pôr em perspectiva histórica suas dificuldades, nem mesmo à resolução de seus sintomas, mas obedecem à afirmação da coerência teórica do próprio analista, até mesmo à solidificação ideológica desta coerência, à vaidade da perpetuação de posições institucionais ou ao simples interesse em manter uma renda.

A estrita aplicação dos ideais, que de início foram formulados por Melanie Klein e plenamente desenvolvidos por Bion, podem levar ao que Lacan designou como “paranóia dirigida”, enquanto a estrita aplicação dos ideais formulados por Lacan correm o risco de levar à “perversão difusa”. Em ambos os casos, a incapacidade em reconhecer o caráter contratransferencial de toda palavra leva à idealização da pessoa do analista, sempre acompanhada de um ódio à análise idealizada e da banalização da singularidade do paciente.

O caráter excessivo destes ideais deixa entrever que as práticas que os originaram foram desde sempre percebidas como excessos, mesmo se certamente eram exceções necessárias ao estabelecimento de regras de base. Deslocar estes ideais acarreta o questionamento de diversos aspectos da técnica analítica . Este deslocamento permite compreender que o destino mais comum do amor de transferência não é o abuso sexual, mas simplesmente a transmissão da análise, isto é, a recondução da transferência e da contratransferência em um outro plano que o da cura, quando esta se torna transferência de transferência, onde auto-análise e autobiografia impõem-se em permanência desde A interpretação dos sonhos. Neste plano, entre exceção e regra, encontra-se o agieren próprio à escrita em que, a partir de um desmoronamento, confirma-se o desdobramento permanente de nossas possibilidades criadoras.