TIPOS DE DEMÊNCIA

Escrito por Joviane A. Moura 

Existem vários tipos de demência, mas todas compartilham uma apresentação comum de sintomas e são identificadas e classificadas com base na etiologia. Dentre as Demências mais conhecidas podemos citar: Demência na Doença de Alzheimer; Demência Vascular de início agudo; Demência por múltiplos infartos; Demência vascular subcortical; Demência vascular mista cortical e subcortical; Demência na Doença de Pick; Demência na doença de Creutzfeldt-Jakob (Vaca Louca); Demência na Doença de Huntington; Demência na doença de Parkinson; Demência na doença causada pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV); Demência decorrente de neurossífilis.

Demência na doença de Alzheimer

A Demência na doença de Alzheimer é a mais comum das Demências e afeta três vezes mais mulheres que homens. O início dos sintomas ocorre após os 40 anos de idade em 96% dos casos, e entre 45 e 65 anos em 80% dos pacientes.

O CID 10 reconhece critérios diagnósticos para quatro subtipos de demência na doença de Alzheimer: demência na doença de Alzheimer de início precoce; demência na doença de Alzheimer de início tardio; demência na doença de Alzheimer, tipo misto ou atípica; demência na doença de

Alzheimer, não especificado.

Na demência na doença de Alzheimer de início precoce a doença inicia-se antes do 65 anos com deterioração relativamente rápida, com marcantes e múltiplos transtornos das funções corticais superiores. Afasia, agrafia, alexia e apraxia ocorrem relativamente cedo no curso da doença.

Na demência na doença de Alzheimer de início tardio o início clinicamente observável é após a idade de 65 anos e usualmente no final da 8ª década de vida ou mais tarde, com uma progressão lenta e usualmente com comprometimento de memória como o aspecto principal.

As respostas dos pacientes aos seus sintomas variam amplamente, passando da depressão, indiferença até a paranóia. Na medida em que a enfermidade progride, aumenta a gravidade dos sintomas. A memória para acontecimentos remotos, vividos antes do início da doença também piora. O reconhecimento diminui a ponto da pessoa não reconhecer familiares e amigos. Nos últimos estágios a linguagem piora consideravelmente e a passa a ser o ponto chave da doença. A fala pode se reduzir a poucos palavras, ou a uma série de sons parecidos com palavras, ou ainda, a palavras são reconhecíveis, mas pronunciadas sem nexo de sentido.  A capacidade de ler em voz alta pode estar preservada, mas a pessoa não consegue lembrar o que leu (dislexia demencial). Os movimentos começam a parecer confusos e desajeitados, um caminhar arrastado, característico do parkinsionismo passa a ser comum (STUART-HAMILTON, 2002).

Nos estágios terminais o paciente fica em um estado não-comunicativo; a incontinência é habitual; muitas vezes apresentam a Síndrome de Kluver-Burry, um conjunto de comportamentos bizarros, incluindo hiperoralidade (impluso de levar a boca tudo o que vê e o impulso de comer imensas quantidades de comida), agnosia visual, hipermetamorfose (impulso compulsivo de tocar em tudo) e a perda do afeto (emoção) (STUART-HAMILTON, 2002).

Pacientes mais jovens tendem a apresentar um declínio mais pronunciado e pacientes com maiores habilidades intelectuais e linguísticas são menos propensos à Demência.

Pacientes com demência apresentam características de deterioração das células cerebrais. Além da perda das células, a morte celular pode deixar atrás de si organismos característicos, incluindo traumas neurofibrilares (grupos de células cerebrais mortas de aparência de cordões emaranhados) e placas senis (grupos de células cerebrais mortas de aparência de massas sólidas). A perda celular é bem seletiva e se concentra no córtex e em algumas regiões subcorticais, principalmente a amígdala, o hipocampo e o tronco cerebral. Algumas áreas do sistema nervoso central são frequentemente poupadas, especialmente os gânglios basais, o cerebelo e a medula espinhal. Os estudos confirmam que conforme a perda celular aumenta o desempenho intelectual diminui, porém algumas pessoas apresentam um número elevado de placas, mas nenhum sinal discernível de DA e, inversamente, outras pessoas apresentam sintomas de DA na ausência de dano neurológico óbvio (STUART-HAMILTON, 2002). Sendo assim o diagnóstico mais efetivo de Alzheimer é feito baseado na história familiar, testes físicos e exames laboratoriais e radiográficos para descartar outras causas de demência.

É difícil confirmar o curso inicial de DA, pois os primeiros sinais são muito sutis e muitas vezes passam despercebidos. Os sinais precoces incluem prejuízo da memória, dificuldade na resolução de problemas, preocupação com eventos ocorridos há muito tempo, diminuição da espontaneidade e incapacidade de responder com a velocidade e precisão usuais do paciente (KAY & TASMAN, 2000).

Ansiedade e psicose, sobretudo delírios paranóides, são comuns no Auzheimer. Benzodiazepínicos inibem nova memória e devem ser evitados. Medicação antipsicótica com alto potencial anticolinérgicos também podem afetar a memória (KAY & TASMAN, 2000).

Demência Vascular – DV

A Demência Vascular é resultado de dano nos vasos sanguíneos do cérebro. O tecido cerebral pode ser lesionado por uma trombose (onde ocorre o bloqueio de um vaso sanguíneo por um coágulo), uma embolia (quando um coágulo isolado aloja-se em uma artéria) ou uma hemorragia (causada por uma ruptura na parede de um vaso sanguíneo). Esses acidentes vasculares provocam a morte do tecido cerebral circundante, o infarto.

É considerada a segunda causa mais comum de Demência, representando cerca de 10% de todos os casos. Os homens têm probabilidade duas vezes maior de receber o diagnóstico de Demência Vascular. É caracterizada por progressão gradual de deterioração cognitiva com sinais de lateralização associados. Sempre está relacionada a evidências de hipertensão sistêmica, e geralmente envolve anormalidades renais e cardíacas (KAY & TASMAN, 2000).

Uma vez que os infartos ocorrem de forma aleatória o curso da doença é difícil de predizer e os sintomas podem variar imensamente entre os pacientes. Enquanto os pacientes que sofrem com outras Demências apresentam tipicamente um ritmo regular de declínio, os pacientes com Demência Vascular apresentam um declínio espasmódico, em solavancos. Podem permanecer em um nível de capacidade, podendo inclusive ter uma melhora temporária, por semanas ou meses, antes de piorar subitamente e passar a um estágio inferior. A progressão dos sintomas é difícil de predizer, mas a memória geralmente é uma das primeiras funções a ser prejudicada. A morte geralmente ocorre por alguma doença cardiovascular relacionada ou uma infecção oportunista (STUART-HAMILTON, 2002).

O CID 10 reconhece quatro diagnósticos principais para demência vascular: Demência Vascular de início agudo; Demência por múltiplos infarto; Demência Vascular subcortical e Demência Vascular mista cortical e subcortical.

Demência Vascular de início agudo geralmente desenvolve-se rapidamente após uma sucessão de ataques decorrentes e trombose, embolia ou hemorragia cerebrovascular. Em raros casos um único infarto maciço pode ser a causa.

Demência por múltiplos infartos é mais gradual, no início, que a forma aguda, seguindo-se a vários episódios isquêmicos menores, os quais produzem um acúmulo de infartos no parênquima cerebral.

Para a Demência Vascular subcortical pode haver uma história de hipertensão e focos de destruição isquêmica na substancia branca profunda dos hemisférios cerebrais, dos quais pode-se suspeitar com bases clínicas e demonstrá-los com tomografia axial computadorizada. O córtex cerebral está usualmente preservado e isto contrasta com o quadro clínico, o qual pode parecer-se intimamente com o aquele de demência na doença de Alzheimer.

Na Demência Vascular mista cortical e subcortical os componentes mistos corticais e subcorticais da demência vascular podem ser suspeitados a partir de aspectos clínicos, dos resultados de investigações (incluindo autópsia) ou de ambos.

Demência na Doença de Pick

A Doença de Pick é uma forma rara de demência progressiva que é clinicamente indistinguível da Doença de Alzheimer e se inicia entre os 50 e 60 anos de idade e tem forte tendência familiar. É caracterizada por alterações de caráter e deterioração social lentamente progressivas, seguidas por comprometimento de funções intelectuais, da memória e da linguagem, com apatia, euforia e, ocasionalmente, fenômenos extrapiramidais. Casos com início precoce tendem a exibir um curso mais maligno.

Ocorre atrofia seletiva dos lobos frontais e temporais espalhando-se para o tálamo, hipotálamo e amígdala, mas sem a ocorrência de placas neuríticas e redes neurofibrilares em maior quantidade do que é visto no envelhecimento normal. No nível celular os neurônios frequentemente se transformam em corpos de Pick, que têm uma aparência edemaciada característica.

As manifestações sociais e comportamentais frequentemente precedem o franco comprometimento da memória.  Stuart-Hamilton (2002) explica que normalmente o paciente apresenta primeiro os problemas esperados de dano no lobo frontal, como perda da capacidade de planejamento, da capacidade de pensar em termos abstratos e assim por diante. A síndrome de Kluver-Burry normalmente se manifesta cedo no curso da doença (e não nos estágios finais, como nos casos de Alzheimer). Também pode incluir comportamento sexual compulsivo, geralmente sem considerar o que é socialmente apropriado. Conforme a doença progride, começam a se manifestar sintomas de demência semelhantes à demência na doença de

Alzheimer. Muitas vezes a linguagem está mais prejudicada que a memória. Esses pacientes são também mais propensos a confabulação (essencialmente, inventar histórias ou explicações implausíveis para encobrir falhas de memória ou outras habilidades), algo raramente observado em pacientes com demência devido à Doença de Alzheimer ou Demência Vascular. Nos estágios terminais o paciente fica reduzido a um estado vegetativo.

Demência na doença de Creutzfeldt-Jacob (Vaca Louca)

De acordo com o CID 10 é uma Demência progressiva com extensos sinais neurológicos, decorrentes de alterações neuropatológicas específicas (encefalopatia espongiforme subaguda), que são presumivelmente causadas por um agente transmissor. O início é usualmente na meia-idade ou velhice, mas pode ocorrer em qualquer fase da idade adulta.

Há evidências de que a fonte da infecção pode ser carne contaminada com encefalopatia bovina espongiforme, um agente infeccioso que produz sintomas similares à doença de Creutzfeldt-Jacob no gado.

As características primárias são demência, disfunção cerebelar e dos gânglios da base, mioclonia, lesões do neurônio motor superior e rápida progressão para estupor, coma e morte em questão de meses. O tempo médio de vida é de quinze meses após seu início.

Demência na Doença de Hurtington

É uma Demência que ocorre como parte de uma degeneração difusa do cérebro. É uma condição hereditária autossômica dominante localizada no cromossomo 4; e geralmente só se torna aparente após os 35 ou 45 anos de idade.

Os primeiros sintomas são perturbações dos movimentos, frequentemente assumindo a forma de contorções e contrações. Mais tarde os pacientes desenvolvem sintomas de demência, embora o declínio possa imitar a esquizofrenia (Stuart-Hamilton, 2002). Em alguns casos os sintomas mais precoces podem ser depressão, ansiedade ou sintomas paranóides, acompanhadas por uma alteração da personalidade (CID 10).

Demência na Doença de Parkinson

Existe um risco maior que a média de um paciente com Parkinson também desenvolver Demência (cerca de 10% a 15%).  Embora a Demência raras vezes ocorra como sintoma inicial da doença de Parkinson, ela é encontrada em 40% dos pacientes acima dos 70 anos de idade com a doença. A Demência ocorre mais comumente em casos de Parkinson nos quais o declínio é rápido e a resposta a anticolinérgicos insatisfatória.

Demência na doença causada pelo vírus da imunodeficiência humana

De acordo com o CID 10 é um transtorno caracterizado por déficits cognitivos que preenchem os critérios diagnósticos clínicos para Demência, na ausência de uma doença concomitante, outra que não infecção por HIV, que pudesse explicar os achados.

Complicações neurológicas ocorrem em 40 a 50% dos pacientes com AIDS, e em cerca de 10% dos casos os sinais neurológicos constituem o primeiro sinal da doença. Em casos de Demência por AIDS a pessoa apresenta prejuízo dos sistemas cognitivos, comportamental e motor. Os transtornos cognitivos incluem prejuízo da memória, confusão e concentração inadequada. Aspectos comportamentais incluem apatia, isolamento, anedonia, depressão, delírios e alucinações. Sintomas motores incluem incoordenação, paresia dos membros inferiores, instabilidade e dificuldade em movimentos motores precisos como escrever ou abotoar roupas. Na medida em que a doença progride, parkinsionismo e mioclonia desenvolvem-se. Sinais de lateralização, tais como tremores, convulsões focais, reflexos anormais e hemiparesia, podem surgir (KAY & TASMAN, 2000).

Demência decorrente de Panencefalite Esclorosante Subaguda

É uma causa infecciosa de demência que costuma aparecer na infância. A idade média de início é de 10 anos, e a maioria é de meninos que vivem em áreas rurais.

Demência decorrente de neurossífilis

A sífilis tardia consiste de uma doença inflamatória contínua, mais provavelmente na aorta ou no sistema nervoso (neurossífilis).

A neurossífilis ocorre em 10% dos pacientes e em estágio tardio pode consistir de: neurossífilis assintomática; sífilis meningovascular; e neurossífilis parenquimatosa. A neurossífilis parenquimatosa é uma paresia geral que ocorre aproximadamente 20 anos após a infecção com sífilis e inclui prejuízo cognitivo, mioclonia, disartria, alterações da personalidade, irritabilidade, psicose, grandiosodade e mania (KAY & TASMAN, 2000)

A Demência por neurossífilis em caso avançado pode incluir entre seus sintomas disartrias, reflexo de Babinski, tremor, pupilas de Argyll Robertson, mielite e atrofia óptica.

O tratamento com antibióticos geralmente melhora os déficits cognitivos, e corrige as anormalidades do LCR, porém a recuperação completa é rara.

Fonte: Tipos de Demência – Transtornos Psíquicos – Psicopatologia – Psicologado Artigos http://artigos.psicologado.com/psicopatologia/transtornos-psiquicos/tipos-de-demencia#ixzz1olXmK2Cf

Referências:rrrrcias

BUSTAMANTE, SONIA E. Z.; BOTTINO, CASSIO M. C.; et. al. Instrumentos combinados na avaliação de Demência em idosos. Arq Neuropsiquiatria, 2003.

Organização Mundial de Saúde. Classificação de transtornos mentais de comportamento da CID-10: descrições clínicas e diretrizes diagnósticas. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.

Associação Americana de Psiquiatria. Manual de Diagnóstico e Estatística de Distúrbios Mentais – DSM-IV.

STUART-HAMILTON, IAN. A psicologia do envelhecimento: uma introdução. 3º Ed. Porto Alegre: Artmed, 2002.

KAY, J.; TASMAN, A. Psiquiatria: ciência comportamental e fundamentos clínicos. São Paulo: Manole, 2000.