SÍNTESE BIOGRÁFICA DE FREUD

Um homem que se acostumou muito cedo a ser da oposição

(Síntese biográfica de Freud)

Roosevelt M. S. Cassoria

(Jornal “Folha de São Paulo”, Folhetim, 23 de setembro de 1979, pág. 7)

Sigmund Freud nasceu em 6 de maio de 1856, em Freiberg, pequena cidade da Morávia (na época pertencente à Áustria – Hungria). Seu pai Jacob. era comerciante de lã. e face ao declínio da indústria têxtil na cidade, emigrou para Viena, quando Sigmund contava 3 anos de idade. Jacob era casado pela segunda vez e Sigmund era o primeiro filho do segundo casamento.

A situação financeira da família não era boa. mas a prioridade paterna dada a educação fez com que aos nove anos Sigmund ingressasse no Gymnasium onde conservou durante 7 anos a primeira colocação. Sendo judeu, o anti-semitismo permeou sempre a sua vida. A seguinte lembrança de sua juventude ilustra bem essa influência:

Contava-lhe o pai, que num de seus passeios dominicais, quando jovem, tendo saído bem vestido e com boné novo, cruzou com um cristão que indignado lhe derrubou o boné, exclamando:

“Desce da calçada, judeu”!

“E você, o que fez?” – perguntou Freud ao pai

“Desci da calçada e peguei o boné” – respondeu Jacob com resignação.

Sobre este episódio conta Freud:

“Não parecendo muito heróica esta conduta do homem alto e robusto que me levava pela mão, contraditei a cena relatada com outra que respondia melhor a meus sentimentos: aquela em que Amílcar Barca, pai da Aníbal, faz jurar a seu filho que se vingará dos romanos.”

E, realmente, Aníbal é um dos heróis com os quais Freud procura se identificar em sua juventude. E seu desejo de não submeter-se, de lutar e de ficar famoso, o seguiu durante toda a sua vida.

Curiosidade relativa

Com 17 anos, e com total liberdade para escolher sua carreira, graças a seu pai, Freud não estava decidido. Como judeu, as opções não eram muitas, e entre o Direito e a Medicina, acaba optando por esta. Na realidade não sentia uma predileção especial pela atividade médica, diz ele:

 

“O que me dominava era uma espécie de curiosidade relativa mais às circunstâncias humanas que aos objetos naturais, e que não havia ainda reconhecido a observação como o meio principal de satisfazer-se”.

 

A teoria de Darwin o atraia extraordinariamente e a leitura do ensaio “A Natureza”, atribuída a Goethe, ouvida numa conferência de vulgarização científica, o decidiu a inscrever-se numa Faculdade de Medicina.

A Universidade lhe provocou no início sensíveis decepções. O preconceito contra os judeus, tanto de colegas como de professores, o faziam sentir-se como um estrangeiro, e muito teve que lutar consigo mesmo para suportar tal ambiente. No entanto, estas primeiras impressões universitárias tiveram a conseqüência importantíssima de acostumar-me a figurar nas fileiras da oposição e fora da “maioria compacta”, dotando-me de uma certa independência de julgamento”.

Dura realidade

No início Freud freqüentou as disciplinas mais variadas, e aos poucos concentrou-se na biologia e depois ria fisiologia, mas sempre se interessando pela filosofia. No 3º ano da Faculdade fez sua primeira investigação científica, dissecando 400 espécimes para pesquisar um detalhe da anatomia da enguia.

De 1876 a 1882 passa anos felizes no laboratório do eminente fisiologista Brucke, que toma como modelo de cientista. Ali desenvolve o rigor científico, dentro da ciência natural predominante na época, estudando a histologia do sistema nervoso e publicando vários trabalhos. Tudo indicava estar destinado à carreira acadêmica, quando alertado por Brucke, cai na realidade de sua situação financeira. O título de médico já fora postergado desde que os estudos médicos propriamente ditos não o interessavam muito (exceção feita à psiquiatria), tendo sido obtido só em 1881 (9 anos após o ingresso na Universidade). Assim, em 1882 abandona os estudos teóricos e passa a trabalhar no Hospital Geral de Viena.

Muito influenciou também essa mudança os esforços para tornar possível seu casamento. Em 1882 ficou noivo de Martha Bernays, de uma família judia de Hamburgo que, embora vivesse na época em Viena, logo foi obrigada a retornar à longínqua cidade do norte da Alemanha.

Nos 4 anos seguintes as cartas foram o principal meio de comunicação entre os noivos.

E, em Viena, Freud preocupou-se em elevar sua reputação no meio médico. Passou por várias clínicas no hospital, fixando-se na de Meynert, onde adquire mais conhecimentos em psiquiatria clínica. Dedica-se também à neuranatomia; sua primeira contribuição tratava das raízes neurais do nervo acústico (1895).

Duas de suas contribuições à neurologia clínica são ainda hoje de significância: um livro sobre a paralisia cerebral e sua monografia sobre a afasia (1891). Em 1885, recomendado por seus mestres anteriores, recebe o título de Privatdozent em Neuropatologia.

Encontro com Charcot

Mas, a anatomia do cérebro não representava para Freud, desde o ponto de vista prático, nenhum progresso em relação à Fisiologia.

Decide, assim, para resolver seus problemas materiais dedicar-se ao estudo das doenças nervosas, especialidade em que Viena pouco poderia lhe oferecer em termos de formação. Assim, passa a freqüentar o famoso serviço de Charcot, em Paris, onde estagia de outubro de 1885 a fevereiro de 1886.

Data desta fase a mudança radical na orientação de Freud. O interesse de Charcot eram os fenômenos histéricos e o hipnotismo, áreas não muito respeitadas no ambiente de onde Freud provinha.

Impressionado com as observações e a personalidade do mestre, Freud se entusiasma com essa nova visão, a despeito de sua formação anterior rígida e tradicional.

A capacidade de observação, o modo honesto, amável e firme com que contradizia as teorias em voga, e a paciência com que discutia as objeções de seus jovens alunos, fizeram de Charcot uma figura admirada. Sua frase: “Isto não impede que exista”, usada para refutar conceitos em voga, ficou gravada para sempre na mente de Freud. O que mais o impressionou neste seu estágio, foi a demonstração da autenticidade dos fenômenos histéricos, a freqüente aparição da histeria em homens e a criação de sintomas através da sugestão hipnótica.

O uso da Cocaína

Freud volta a Viena em 1886 e casa-se com Martha Bernays, montando consultório.

Pouco antes, havia se entusiasmado com as potencialidades da cocaína e fica a um passo da descoberta de sua capacidade anestésica – tendo perdido a prioridade para Koller – devido a uma viagem que fizera para visitar sua noiva.

No entanto, essa época foi também trágica porque, no seu entusiasmo, Freud recomendava a cocaína a seus conhecidos, ignorando sua capacidade de provocar dependência. Assim morre um seu amigo íntimo, quem recomendara cocaína para tratar sua dependência à morfina.

Em Viena o esperavam decepções. Suas comunicações dos trabalhos de Charcot e de suas próprias observações foram muito mal recebidas pela Sociedade de Médicos.

Colegas de grande autoridade o ironizavam. Um famoso cirurgião negava a existência de histeria masculina e punha em xeque seu conhecimento de grego mostrando-lhe que “Hysteron” quer dizer útero.

Mesmo conseguindo casos e demonstrações irrefutáveis é aos poucos isolado e desiste de continuar defendendo suas idéias em público.

Dez anos sozinho

Na sua prática privada, passa a lidar com grande quantidade de neuróticos. Logo se decepciona com os tratamentos em voa e volta-se para a sugestão hipnótica.

Por essa época revê com Breuer, um grande clínico seu amigo e protetor, um caso tratado entre 1880 e 1882, em que Breuer conseguira curar uma paciente histérica (Anna O .) através de hipnose e encorajando-a a falar em seus transes de suas experiências anteriores.

Partindo dessa cura “catártica”, Breuer e Freud estudam outros pacientes e, em 1895 publicam “Estudos sobre a Histeria”.

Em 1889 Freud visita o serviço de Bernheim e Liébault, em Nancy (França), onde aprofunda seus estudos sobre o hipnotismo.

Aos poucos Breuer se distancia de Freud, à medida que este vai desenvolvendo suas observações sobre a influência da sexualidade na vida de seus pacientes e se afasta cada vez mais da fisiologia.

Sabe-se também, que Breuer assustou-se muito com a transferência sexual de suas pacientes, fenômeno cuja importância foi logo a seguir descoberta por Freud.

Desde esse momento, 1895, até o fim de sua vida, Freud desenvolve o imenso edifício da psicanálise e toda a sua existência se encontra intimamente ligada a esse desenvolvimento.

Nos primeiros dez anos trabalha sozinho, num “esplêndido isolamento”, e a falta de reconhecimento científico é compensada, como escreve mais tarde, pela tranqüilidade de não ter que entrar em polêmicas desgastantes, o que lhe proporcionava mais tempo para pesquisar. As cartas com seu amigo Fliess (iniciadas em 1887 e encerradas em 1902) servem de testemunho ao desenvolvimento de suas idéias, sendo que em 1895 lhe manda o “Projeto para uma psicologia científica”, uma tentativa de colocar a psicologia em termos neurológicos – mas já indicando a transição para uma nova ciência, independente.

Êxito nos EUA

Essa fase difícil é compensada por um feliz casamento e uma família em crescimento – 3 meninos e 3 meninas.

Mas não era só a natureza de suas descobertas que criava um preconceito contra ele nos meios médicos – também o efeito do intenso sentimento anti-semita que dominava o mundo oficial de Viena era importante: por esse motivo sua indicação para professor da Universidade era constantemente dificultada.

Aos poucos alguns discípulos passam a rodeá-lo em Viena, mas só em 1906 o grupo passa a desenvolver-se com a adesão da escola suíça de Bleuler, famoso psiquiatra de Zurich, entre cujos discípulos se encontrava Jung. O primeiro encontro internacional de psicanalistas é efetuado em 1908 em Salzburgo.

Em 1909 Freud e Jung são convidados por G. Stanley Hall para um ciclo de conferência na Clark University, nos EUA, e Freud fica muito gratificado com a aceitação que a psicanálise começava a Ter nos EUA, ao contrário da Europa.

Suas obras começam a ser traduzidas a vários idiomas, mas as dificuldades continuavam em várias frentes.

O grupo inicial de Freud – na realidade uma tentativa de união não só para proporcionar um maior desenvolvimento à ciência nascente, mas também uma maneira de proteger-se da hostilidade do ambiente – também sofre defecções.

Em 1911 Adler se separa e em 1914 o mesmo ocorre com Jung. Segue-se a Primeira Guerra Mundial e a conseqüente interrupção da divulgação internacional da psicanálise.

A morte em Londres

Logo após ocorrem as maiores tragédias pessoais de Freud: a morte de uma filha e de neto favorito, e o início de um câncer no maxilar superior que o perseguiu inexoravelmente pelos últimos 16 anos de sua vida, obrigando-o a muitas intervenções cirúrgicas.

No entanto, até a sua morte nada interrompeu suas observações e inferências, tendo publicado uma quantidade imensa de trabalhos.

O reconhecimento de suas idéias vai se ampliando e a aplicação da psicanálise também, particularmente no campo da sociologia e depois das ciências humanas e artes em geral.

No fim de sua vida já é reconhecido como uma celebridade mundial, e, quando Hitler invade a Áustria em 1938 (tendo sido queimadas suas obras), a pressão mundial faz com que seja protegido dos excessos nazistas e consegue abandonar Viena, fixando-se em Londres.

É ali que falece, em 23 de setembro de 1939……

 

 

 

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