HISTÓRIA DA IGREJA – O 1º SÉCULO

História da Igreja: O primeiro século

Por Robert Hastings Nichols1 – JESUS E A SUA IGREJA[a] Jesus e seus discípulos

Jesus teve “compaixão das multidões” e lutou por alcançar, com o Seu ministério, o maior número possível de pessoas. Mas evidentemente sentiu que poderia fazer muito mais a favor do mundo, tendo ao Seu lado alguns homens escolhidos cheios do Seu espírito para continuarem a Sua obra, do que Ele mesmo levar todo o tempo em pregações públicas. Logo no início do ministério, Jesus convidou alguns para serem Seus companheiros e participantes da Sua missão.

Depois, dentre os que creram nele, fez escolha de doze, para serem Seus companheiros mais íntimos. Numa ocasião também escolheu setenta, aos quais preparou para o ministério especial da pregação. As relações de Jesus para com Seus discípulos, especialmente para com os doze, constituem uma das partes características mais importantes da Sua obra. A estes, ministrou ensinos que não deu aos demais de modo geral, e os preparou, de sorte que, após a Sua volta aos céus, esses apóstolos pudessem revelar um conhecimento perfeito do Mestre, do Seu ensino, da Revelação de Deus, e da Salvação que, pelo Filho, mandou ao mundo; e também a conduta de vida para a qual Cristo chamou todos os homens.

Próximo ao fim do Seu ministério, Jesus dedicou-se mais e mais a esta natureza de trabalho com Seus discípulos. Após a ressurreição apareceu somente aos seus discípulos. Suas últimas palavras foram uma ordem definida para que levassem o anúncio do Evangelho a “todas as nações” e uma promessa de assisti-los com poder, através de todos os tempos enquanto estives sem realizando a sua missão por todo o mundo.

[b] Jesus funda a sua Igreja

Evidentemente Jesus deixou clara a necessidade de haver uma sociedade constituída dos Seus seguidores a fim de oferecer ao mundo o Evangelho e ministrar em Seu espírito, os ensinos que lhes dera. O objetivo era propagar o Reino de Deus. Ele não modelou qualquer organização ou plano de governo para esta sociedade. Não indicou oficiais para exercerem autoridade sobre os membros de tal organização. Credo algum prescreveu para ela. Nenhum código de regras lhe fora imposto. Não prescreveu ordens em formas de culto. Apenas deu aos seguidores os ritos religiosos mais simples: o batismo, com água, para significar a purificação espiritual e consagração ao Seu discipulado; e a Ceia do Senhor, na qual usou um pouco dos elementos mais comuns da alimentação, como uma comemoração ou lembrança dele próprio, especialmente da Sua morte para a redenção dos homens.

Conseqüentemente, em nada do que Jesus fez podemos descobrir a organização da Igreja. Fez mais, do que dar organização: deu vida à Igreja. Ele fundou a Igreja, ou melhor, Ele mesmo a criou.

Jesus formou uma sociedade dos Seus seguidores, agrupando-os ao redor de si mesmo. Comunicou a esse grupo, até onde era possível, Sua própria vida. Seu espírito e propósito. Prometeu dar através dos séculos, vitalidade a esta sociedade, Sua Igreja. E Sua grande dádiva a ela foi o dom dele próprio. Nele, a Igreja teria de encontrar os seus princípios, os seus objetivos, o seu poder. Deixou a Igreja livre para escolher as formas de organização e de culto, afirmações de crença, métodos de trabalho, etc. O propósito de Cristo era que a vida da Sua igreja, isto é, a vida do Salvador latente em Seus seguidores, se expressasse pelos modos que lhes parecessem mais apropriados para a consecução do grande objetivo em vista.

2 – A IGREJA APOSTÓLICA (Até o Ano 100 A.D.)

[a] O começo

Num certo sentido, a Igreja Cristã teve seu nascimento quando Jesus chamou Seus primeiros discípulos. Comumente, porém, se diz que a História da Igreja teve início no dia de Pentecostes que se seguiu à ressurreição, pois foi quando teve começo a vida ativa da Igreja. Após a ascensão de Jesus aos céus, os discípulos, não obstante terem recebido ordens de anunciar o Evangelho ao mundo, permaneceram, todavia, quietos, tranqüilos em Jerusalém.

Estavam aguardando, segundo a ordem do Mestre, o poder prometido que viria do alto. Dez dias depois, no Pentecostes, o Espírito Santo prometido por Jesus veio sobre eles, revestindo-os de poder. Tornaram-se, após, testemunhas intimoratas do Mestre, plenos de nobre atividade.

Verifica-se tal mudança no próprio discurso de Pedro no Pentecostes. O que sucedeu a Pedro naquele dia expressa o espírito de todos os primeiros cristãos, daquele dia em diante. E desde então, a Igreja Crista, como uma comunidade destinada a dar testemunho de Cristo, vem proclamando o Evangelho, edificando o Reino de Deus na terra.

[b] A Extensão da Igreja

A primeira pregação do Evangelho, no Pentecostes, foi dirigida unicamente aos judeus. Por algum tempo talvez dois ou três anos, as missões cristãs eram limitadas aos judeus, começando em Jerusalém e daí estendendo-se a toda a Palestina. Os primitivos cristãos não perceberam logo a extensão do propósito divino, na salvação do mundo. Como hebreus, reconheciam que Jesus era o Messias esperado pelo Seu povo. Portanto o consideravam como Salvador somente ou principalmente dos judeus, apesar de Jesus, por palavras e atos, ter-lhes ensinado coisa diferente.

A perseguição foi o meio pelo qual a Igreja nascente chegou a uma compreensão mais segura do Evangelho que Jesus lhe dera a pregar, e por ela alcançou uma visão mais ampla da obra que Jesus lhe propusera. As autoridades judaicas que tinham tentado embaraçar a pregação evangélica levantaram-se por causa do audaz desafio que foi o discurso de Estevão, e empreenderam uma campanha selvagem, violenta e sistemática contra o Cristianismo, Com esse ataque, a comunidade cristã de Jerusalém que já contava alguns milhares, foi dissolvida. Seus elementos procuraram segurança, espalhando-se por toda a Palestina.

Não obstante fugirem para salvarem a vida e por causa da sua fé, levavam o Evangelho aonde quer que fossem. Alguns deles foram até à grande cidade de Antioquia, na Síria. Ali, os seguidores de Cristo foram, pela primeira vez, chamados “cristãos”, nome que, parece, lhes foi dado por zombaria. Nesta cidade, vivendo no meio de uma população grega, esses exilados tornaram Jesus conhecido tanto de gregos como de judeus.

Desse modo certos crentes obscuros e desconhecidos deram o grande passo para tornarem o Cristianismo uma religião universal. Um pouco mais tarde essa Igreja de Antioquia enviou Barnabé e Paulo, os primeiros expressamente designados para pregarem Cristo aos gentios.

Foi Paulo quem concluiu, sob a direção divina, a obra de libertar o Cristianismo. Paulo realizou o que sempre estivera no propósito divino: fazer do Cristianismo uma religião para todos. Daí em diante foi o Cristianismo pregado a todos os homens no mesmo pé de igualdade.

Começando, assim sua grande carreira missionária, o Cristianismo espalhou-se, de sorte que pelo ano 100 A.D. havia igrejas em inúmeras cidades da Ásia Menor e em muitos lugares da Palestina, Síria, Macedônia e Grécia, em Roma e Puteoli na Itália, em Alexandria, e, provavelmente, na Espanha.

Paulo foi naturalmente o missionário que mais contribuiu para esse resultado. O Novo Testamento refere os nomes de alguns outros como Priscila e Áquila. O que a tradição relata sobre a pregação dos apóstolos leva-nos a pensar que todos eles deram testemunho intimorato, levando às plagas mais longínquas as Boas Novas, não obstante conhecermos com mais segurança, apenas o trabalho de Pedro e João.

Todavia, muito da tarefa heróica de tão grande esforço evangelístico foi realizado por discípulos e missionários cujos nomes desconhecemos. Cada crente era um missionário ansioso por oferecer a alegria de que gozava em Cristo, às pessoas que encontrava no trabalho, nas comunidades e em outros meios.

Em virtude do zelo que tinham em anunciar a Cristo e, muito mais ainda, pelo testemunho das suas vidas fiéis que anunciavam o poder de Cristo, esses cristãos desconhecidos foram os mais eficazes missionários sua religião.

[c] A vida da Igreja

Naquele tempo uma igreja cristã era comumente um pequeno grupo de crentes vivendo numa grande comunidade pagã. Quase todos eram pessoas pobres, alguns escravos, embora houvesse cristãos nas classes mais altas, especialmente na igreja de Roma. Em toda parte havia muita coisa que distinguia um cristão dos vizinhos pagãos. Eles se tratavam mutuamente por irmãos em Cristo e realmente agiam como irmãos. Cuidavam desveladamente dos órfãos, dos doentes, das viúvas, dos desamparados.

As coletas e a administração dos fundos de caridade constituíam uma das partes mais importantes da vida dessas igrejas primitivas. Dentro da Igreja todas as distinções foram abolidas. Escravos e senhores foram nivelados. As mulheres alcançaram uma posição de honra e de influência que jamais conseguiram na sociedade profana.

Distinguiam-se também os cristãos por um fervor e pureza moral jamais conhecidos em qualquer parte. As Epístolas de Paulo aos Coríntios nos falam de um povo que estava longe de ser perfeito como era de esperar daqueles recentemente convertidos do paganismo e que viviam no meio das suas tentações. Não obstante, as vidas dos cristãos gentios demonstravam o poder que tem o Evangelho de conceder aos homens uma nova justiça.

Além disso a atitude dominante dos cristãos era de contentamento e confiança admiráveis. Regozijavam-se no amor de Deus, o Pai, na comunhão com Cristo redivivo, no perdão dos pecados, na certeza da imortalidade. Assim desconheciam a tristeza e o desespero que oprimiam a vida de muitos que os cercavam. Esses característicos dos cristãos primitivos constituíam uma poderosa recomendação para o Cristianismo, promovendo o seu desenvolvimento.

Todos esses característicos derivavam parte do seu vigor da constante expectação em que viviam esses discípulos quanto a iminente vinda do Senhor, em glória visível, para restabelecer Seu Reino triunfante sobre a terra. A predominância desta esperança na Igreja apostólica nunca deve ser esquecida quando consideramos este período histórico da Igreja. É verdade que esses cristãos primitivos cometeram certos erros sobre este assunto da volta do Senhor, mas a esperança de que se achavam possuídos muito contribuiu para fortalecer e purificar suas vidas.

Os cristãos necessitavam de um auxílio especial, pois estavam constantemente expostos a sofrimentos por causa da sua fé. Muitas vezes foram assolados pelos judeus inimigos do Cristianismo. Os cristãos eram também odiados por muitos, por suas vidas constituírem permanente condenação dos costumes e conduta moral aos pagãos.

A partir de Nero (54 a 68 A.D.), o governo romano começou a hostilizar o Cristianismo, tentando eliminá-lo cruel e vigorosamente. Essa perseguição variava de intensidade a medida que variavam os governos. Consideraremos as razões dessa hostilidade no próximo capítulo. Não esqueçamos, porém, o fato de que durante a segunda metade do primeiro século o Cristianismo enfrentou o poder oficial como seu inimigo rancoroso.

Muitos cristãos, tanto famosos líderes como Paulo, como heróis outros desconhecidos receberam a coroa de martírio.

[d] O culto na Igreja

A pobreza e a perseguição impossibilitaram a igreja primitiva de construir seus templos durante o primeiro século, razão por que os cristãos se reuniam para o culto em casas particulares. Deduzimos das Epístolas Paulo, especialmente as enviadas aos Coríntios, que havia dois tipos de reuniões de culto.

Um era do tipo do culto de oração. O culto era dirigido conforme o Espírito os movia no momento. Faziam orações, davam testemunho, ministravam certos ensinos, cantavam Salmos. Aí apareceram também os primeiros hinos cristãos do primeiro século. Eram lidas e explicadas as Escrituras do Velho Testamento. Havia também leituras ou citações de memória dos atos e ensinos de Jesus. Quando os apóstolos enviavam cartas às igrejas, como as que encontramos no Novo Testamento, essas cartas eram lidas para todos. Nessas reuniões o entusiasmo do Cristianismo primitivo encontrou livre expressão. E esse entusiasmo às vezes era tão ardoroso que resultava em certa desordem. Eram admitidos os estranhos a essas reuniões e nelas alguns deles se levantavam confessando os pecados e a declarar que aceitavam a Jesus.

A outra era conhecida como a Festa do Amor ou Fraternidade. Era uma refeição comum, muito alegre e sagrada, símbolo de amor fraternal cristão. Dela somente os cristãos podiam participar. Cada um trazia a sua parte da refeição e estes elementos eram repartidos entre todos igualmente. Paulo repreende o egoísmo dos que comiam o que eles mesmos traziam e se recusavam a dividir o que tinham com os que não podiam trazer coisas tão boas.

Durante as rejeições as refeições o dirigente dava graças. Ao fim de tudo celebrava-se a Ceia do Senhor em que se usava uma parte do pão tinha sido servido na Festa. Esta reunião era no dia do Senhor, o primeiro dia da semana que os cristãos guardavam como a Festa para comemorar a ressurreição de Cristo. Não obstante haver bastante incerteza este assunto, é provável que, a princípio, a Festa do Amor fosse realizada à noite.

Já no fim do primeiro século a Ceia do Senhor foi separada da Festa do Amor e celebrada numa reunião matinal. Sabemos que no segundo século a Ceia do Senhor ou a Eucaristia era celebrada pela manhã do dia do domingo, chamado Dia do Senhor.

[e] A crença da Igreja

Na Igreja do primeiro século não se compuseram credos ou declarações formais de fé. O Credo dos Apóstolos só apareceu no segundo século. Para conhecermos a crença dos cristãos primitivos devemos recorrer ao Novo Testamento. Criam eles em Deus, o Pai em Jesus como o filho de Deus e Salvador; criam no Espírito Santo, de cuja presença estavam cônscios. Criam no perdão dos pecados. A base do seu ideal moral era o ensino de Jesus sobre o amor a todos os homens.

Aguardavam a volta de Jesus para exercer o julgamento final e dar a vida eterna a todos os que criam nele. Suas idéias doutrinárias, se assim as podemos chamar, eram muito simples. Todos os seus pensamentos sobre a vida religiosa tinham como centro a Pessoa de Cristo.

Duas influências levaram os crentes do primeiro século a cair em alguns erros doutrinários os quais, de certo modo, ameaçaram a pureza do Evangelho. Os “judaizantes” ensinavam que os cristãos deviam cumprir todas as cerimônias exigidas pela Lei Judaica. Paulo condenou-os porque viu que se o ensino deles prevalecesse, o Cristianismo não podia ser a religião de todas as raças.

Encontramos no Novo Testamento advertências solenes contra os erros do chamado Gnosticismo. Esta seita surgiu no primeiro século e veio depois se tornar muito poderosa. Consistia de uma estranha mistura de idéias cristãs, judaicas e pagãs. Era muito parecida com o Cristianismo de modo a confundir alguns crentes. Desta seita falaremos mais adiante.

[f] O governo da Igreja

As igrejas primitivas eram independentes, com governo próprio decidindo todos os seus negócios e problemas. Os cristãos insistentemente afirmavam que pertenciam à única Igreja Universal, pois todos eram um em Cristo, mas nenhuma organização de caráter geral exercia controle sobre as inúmeras igrejas espalhadas por toda a parte.

Os primeiros apóstolos eram reverenciados, em virtude do contacto que tiveram com Cristo e exerciam certa autoridade, como se verifica da decisão tomada quanto aos cristãos gentios e à lei judaica e como se vê no cap. 15 de Atos. Paulo exercia autoridade em virtude da sua posição de apóstolo e do seu trabalho extraordinário. Mas a autoridade desses homens não derivava do seu ofício, nem se expressava numa organização formal.

O Novo Testamento fala de oficiais que se ocupavam do ministério da pregação e do ensino. São conhecidos como apóstolos e profetas (1) e mestres, O nome de “apóstolo” não era restrito aos companheiros de Jesus, mas pertencia também a outros pioneiros do Evangelho que levavam as Boas Novas aos novos campos.

Os profetas e mestres ou doutores esclareciam o significado dos evangelhos as igrejas. Todos esses exerciam seus ofícios não peia indicação de qualquer autoridade, mas porque revelavam estar habilitados para tais ofícios pelos dons do Espírito Santo. O ministério desses oficiais se estendia a toda a Igreja, não era restrito a congregações particulares. Vemos muitos dos apóstolos e profetas viajando por toda a parte a serviço da causa. No primeiro século, a pregação e o ensino do Evangelho eram feitos principalmente por esses homens e por algumas mulheres, antes que por oficiais de igrejas locais.

O Novo Testamento fala de outra natureza de ministério que dizia respeito aos negócios das congregações. Sobre isto não sabemos muita coisa. Parece que não havia nenhum modelo de organização para todas as igrejas mas estas agiam livre e independentemente e seus métodos diferiam. Em algumas igrejas fundadas por Paulo havia dois grupos de oficiais: os anciãos ou presbíteros, também chamados de bispos, que eram superintendentes; o outro grupo era de diáconos.

Os anciãos ou bispos tinham o encargo do pastorado, disciplina e dos negócios econômicos. Os diáconos prestavam um serviço especial – o da beneficência. Os presbíteros presidiam à Mesa do Senhor e pregavam quando não estava presente algum apóstolo, profeta ou mestre. Esses oficiais eram escolhidos pelo povo porque revelavam os dons e a vocação do Espírito Santo para esse trabalho. Tal forma de distribuição de encargos não admitia qualquer oficial como os pastores atuais.

Parece que havia outras igrejas com diferentes formas de organização; em alguns casos a liderança estava com um indivíduo; noutros, o governo era congregacional.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s