APOSTILA DE INTERPRETAÇÃO DE SONHOS

PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS PARA

A INTERPRETAÇÃO DE SONHOS

Carlos Moura dos Reis

RESUMO:

Palavras-chaves

Princípios básicos alicerçados nos fundamentos da psicanálise, relevantes à Interpretação psicanalítica dos sonhos. Calcado na pesquisa bibliográfica de autores que, desde Freud, tratam cientificamente o assunto de forma sistemática, as ideias já trabalhadas e expostas por esses estudiosos são equalizadas, compatibilizadas entre si e atualizadas no que couber. O resultado é sinteticamente apresentado sob uma forma estruturada com o propósito de facilitar a compreensão do funcionamento dos mecanismos e princípios que regem o trabalho do sonho e,

consequentemente, sua interpretação psicanalítica. Como conclusão e tomando por escopo a disposição com que os estudados componentes dos sonhos são organizados, algumas regras básicas gerais que podem nortear a sua interpretação psicanalítica são destacadas, baseadas nos princípios gerais e nas normas que facilitam tal interpretação.

Palavras chaves: Inconsciente, Sonhos, Conteúdos, Mecanismos.

 

 

 

1.FUNDAMENTOS

1.1.OInconsciente

Os atuais estudos sobre o inconsciente revelam que somente aos poucos o reconhecimento de uma vida psíquica inconsciente foi sendo estabelecido.

Inicialmente foi reconhecido apenas um limiar na consciência. Logo a seguir descobriu-se também a existência de material imediatamente abaixo do citado limiar, que foi chamado de

subconsciência, termo derivado de estudos metafísicos.

Somente muito depois, reconheceu-se a existência e a importância dos fatos inconscientes, graças às doutrinas dos psicopatologistas. Por consequência, admitiu se uma atividade psíquica inconsciente.

Muitos foram os pesquisadores que abordaram o Inconsciente, mesmo antes ou paralelamente a Freud. Seus esforços, porém

terminavam caindo, todos, no lugar comum da especulação, sem apresentar nada de prático nem de útil.

Dessa forma, tudo o que hoje é conhecido a respeito do inconsciente como um sistema e não mais somente o inconsciente descritivo devemos a Sigmund Freud que, como resultado de seu trabalho de pesquisas, apresentou uma concepção do inconsciente como um sistema, demonstrando que na sexualidade estavam todas as respostas há muito buscadas pelos grandes nomes da ciência.

Dos trabalhos de Freud é possível inferir : (1) que o inconsciente se forma desde os primeiros momentos da vida extrauterina; (2)

que na primeira infância as pulsões são dirigidas, às vezes com violência, para o primeiro indivíduo capaz de satisfazê-las.

Dessa concepção básica resulta que, se os primeiros impulsos sexuais não podem manifestar-se às claras, adotam o mascaramento; com o ocultamento que se instala tudo o que se

mascarou torna-se inconsciente. E mais: tudo o que se tornou inconsciente continua operante, como operantes são também todos os esquemas implantados, em forma de defesas ainda que

absolutamente inconscientes. Tanto assim é que Carvalho referindo-se a Freud diz ser deste o pensamento segundo o qual:

Aquele que tem olhos para ver e ouvidos para ouvir, pode convencer-se de que nenhum mortal pode guardar um segredo. Estando seus lábios silenciosos, fala ele com as pontas dos dedos, traindo-se por todos os poros. Assim, a tarefa de tornar conscientes os mais escondidos recessos da mente se torna perfeitamente factível.

Fica claro, então, que sempre resulta implantado todo um sistema de censura, de proibições, de cerceamento, de inibições, a vigiar

permanentemente os impulsos, a motilidade pulsional e tudo o que quer que tenha sido inibido.

Também essa é a razão por que há ideias que transitam livremente na consciência aparecendo e reaparecendo sem dificuldade: são

elementos psíquicos, as representações psíquicas, que gozam de um “bom conceito” da censura. Outros elementos, porém, só

reaparecem com dificuldade, denotando conter relação com algo censurável. E, finalmente, outros elementos há, ainda, que desaparecem por completo, não voltam a ser conscientes,

denotando terem sido repudiados pela censura que considerou sua presença nociva ao sistema Consciente e, por isso, foram como que

“aprisionados” no sistema inconsciente.

Daí a concepção, por Freud, da Teoria topográfica, para explicar o funcionamento do aparelho psíquico que, segundo a mesma, se

constitui de 3 patamares ou níveis. Na verdade trata-se de 3 sistemas mentais: (1) o Ics (o Inconsciente como um sistema, diferente do

inconsciente descritivo), que abrange os elementos psíquicos cuja acessibilidade à consciência é difícil ou impossível; (2) o Pcs (pré-consciente), cujos elementos mentais são acessíveis à consciência via concentração de atenção; e, (3) o Cs (Consciente), que é o sistema

que inclui tudo o que é consciente num dado momento (no “aqui e agora”, como se costuma dizer).

Operando justamente entre os sistemas Ics e Pcs, a chamada censura

intersistêmica faculta ao Pcs operar a exclusão dos elementos indesejáveis recusando-lhes ingresso no sistema Cs e remetendo-os ao Sistema Ics,

Além de e após a Teoria Topográfica, Freud concebeu também a Teoria estrutural.

Admitindo um “espaço” intrapsíquico formado pelos sistemas Inconsciente, Pré-consciente e Consciente, concebeu três estruturas atuando nesse “espaço” e denominou-as de Id, Ego e Superego Considerou como sendo Id o polo pulsional da personalidade; o Ego, o polo defensivo da personalidade (acumulando as funções de executivo e de ligação entre os processos psíquicos); e, o Superego

(vulgarmente entendido como “a consciência”), a instância cuja função primordial é a de censor do ego, em substituição aos pais. Dentro dessa configuração o superego constitui-se, então, no

responsável pelo desenvolvimento da consciência moral, pela auto-observação e pela formação dos ideais, assumindo também a

condição de protetor e de salvador do ego.

Portanto, segundo Freud, a mente humana conta com o superego, como um grande fiscal a manter esse mecanismo do qual resulta o

mascaramento ou a forma supressiva que o indivíduo adota para fugir do que possa entender seja reprovável (ainda que reconheça

seja pulsional). Desse mecanismo é que resulta o que se chama de repressão.

Trata-se, portanto, de um processo que se inicia na primeira infância (na verdade desde os primeiros segundos após o nascimento) por

conta das influências externas, inclusive a erogenização exercida pelos cuidadores e as oriundas do ambiente familiar, social e cultural

em que o bebê está inserido. Natural e inexoravelmente os resultados de todas essas influências repercutem inconscientemente por toda a vida, só sendo possível administrar seus efeitos, através da Psicanálise.

Entenda-se, assim, que quando o indivíduo vem ao mundo ele é simplesmente id.

Nessa fase o indivíduo é impessoal; é, psiquicamente, amorfo. Em tal condição é apenas um simples organismo que há pouco

deixou de ser um órgão anexo do organismo da mãe. À medida que vai reagindo às “agressões” do meio social, ou seja, conforme as pulsões vão sendo estimuladas e orientadas, ou melhor ainda,

à medida que o indivíduo vai sendo educado pelas aspirações éticas e culturais do ser humano (enfatizando-se aqui a forte influência do

narcisismo parental), forma-se pouco a pouco o eu moral. E com a formação do eu, nesses termos, dá-se também a inauguração da

formação do Ics, porquanto desde então, se faz necessário que esse seja o eu que a educação edifica, o ego ideal do qual deriva o senso da personalidade, o eu como indivíduo, o eu pessoa, o íntimo. Não deixa, contudo, de ser aquele algo que num certo sentido só é passível de vir a ser relativamente “conhecido” por cada um de persi, uma vez que no processo de sua edificação muitos foram os afetos que precisaram ser reprimidos.

É que nesse processo formativo aquilo que as exigências do preceito social pretendem a todo custo encobrir, não deve fazer parte nas

exteriorizações do ego. Daí, então, tudo o que diz respeito ao “sexual”, suas ideias, suas exigências, seus impulsos, suas tendências, etc., são reprimidos. Há quem afirme que todas essas

mesmas condições serão recalcadas (e não mais, reprimidas), quando esse processo ocorre após a fase edípica. De qualquer forma, como repressão e como recalque, o processo é sempre decorrente da ação do superego, entendendo-se este como o corpo de leis e normas a que o ego deve se subjugar.

Em outras palavras, o superego funciona como sendo nada mais nada menos que o dado que corresponde a uma instância censora que tem por objetivo defender o ego das investidas do id. O superego atua, então, como uma espécie de autoridade paterna, um pai perfeito, todo amoroso e todo poderoso ao qual o ego terá que obedecer se quiser ser salvo da rejeição pela sociedade. O superego

corresponde, portanto, como propõe Fenichel, à introjeção da fórmula “Se obedeceres serás protegido” [fórmula essa] “que todos os deuses e todas as autoridades terrenas” [e eu acrescentaria: todas as culturas] “têm em comum” . Por essa razão é considerado o

protetor e salvador do ego.

O que é importante ressaltar é que certos afetos são excluídos do sistema Pcs por meio da ação da censura intersistêmica, o que

constitui a chamada Repressão . E o Reprimido – esse conjunto de elementos do Ics aos quais é negado o acesso à consciência – é que, sob os mais diferentes disfarces, se expressam nos conteúdos dos sonhos.

1.2. OS SONHOS

Uma das maneiras pelas quais os elementos derivados do Ics – os afetos – podem conseguir acesso à consciência sem as costumeiras resistências é justamente através dos sonhos.

Segundo a “Psicanálise dos Sonhos”, “o próprio Freud considera a análise dos sonhos como a ‘estrada real do inconsciente”, pensamento corroborado por Garcia-Roza quando atribui a Freud a afirmação de que “o sonho é o pórtico real da psicanálise”.

De fato, como já fartamente comprovado através da clínica psicanalítica, é possível ter-se acesso ao reprimido não só

através dos sintomas, dos chistes, das parapraxias (atos falhos), mas, também e até com menor grau de dificuldade, através dos

sonhos.

Os sonhos, portanto, constituem uma importante ferramenta para “tornar consciente o inconsciente”. Embora hodiernamente haja

psicanalistas que considerem que o inconsciente jamais se torne consciente, isto é, jamais deixe de ser inconsciente, não obstante, ninguém questiona que os sonhos continuam sendo de

extrema importância na Psicanálise. Até mesmo porque continuam possibilitando ao psicanalista a superação das resistências, bem como a identificação dos conteúdos latentes resultantes

da elaboração do inconsciente como um sistema.

Partindo-se do pressuposto de que os conteúdos inconscientes são de grande relevância na determinação da conduta e do

pensamento, então, por isso é que, inegavelmente, a interpretação dos sonhos adquire valor imprescindível no contexto da Psicanálise. Como já mencionado, é, de fato, através do fenômeno onírico que se tornam possíveis contatos com processos mentais inacessíveis em estado de vigília.

O que ocorre é que durante o sono, energias do sistema Ics adquirem o poder de atravessar o aparelho psíquico em direção inversa e de catexizar, de investir energia psíquica, em resíduos mnêmicos visuais. A intensidade desse investimento é suficiente para

tornar tais resíduos, conscientes, sob a forma de percepções sensitivas, ou melhor, como imagens no sonho, pois uma exigência do sistema de expressão dos sonhos é a de que todas as significações, até os pensamentos mais abstratos, exprimam-se por imagens. E uma vez que tais imagens são passiveis de se tornarem conscientes, torna-se possível o acesso aos derivados do sistema Ics, através dos sonhos.

Na verdade, pode-se mesmo afirmar serem os sonhos o caminho de acesso mais direto ao inconsciente humano, e, por isso, serem considerados a via régia do seu acesso.

Justifica isso o fato de que, uma vez que a mente não está com o ego e o superego de prontidão, como acontece no estado de vigília, torna-se possível que o material inconsciente aflore à superfície ou pelo menos até o nível do Pcs, e, portanto, torne-se resgatável.

Foi o que logo inferiu Freud quando, ao ouvir os pacientes a associar livremente – método por ele designado de Associação Livre,

percebeu que no meio de todo o material que surgia, vinham os sonhos. A princípio não os diferenciou das associações. Logo a seguir, porém, deu-se conta do fato de existirem neles, significados próprios, passíveis de análise.

Em concordância com Freud pode-se afirmar que o sonho é uma externalização de um processo interno, constituindo a realização de

um desejo reprimido. Daí o ser dito que em todo sonho os desejos reprimidos ou se realizam ou tentam realizar-se, mas sob um ‘disfarce onírico”, muitas vezes de natureza sexual ou ambiciosa. É

claro que existem também – e não se pode deixar de mencionar, os chamados “sonhos de contradesejo”. Para estes, uma das razões

apontadas por Freud, seria a existência do que ele designou como “masoquistas mentais”, ou seja, aqueles que encontram prazer não na inflição de dor física a eles, mas na humilhação e na tortura

mental. […] essas pessoas podem ter sonhos de contradesejo e sonhos desprazerosos que são, ainda assim, realizações de desejos, pois satisfazem suas inclinações masoquistas.

Daí por que ser mais completa a fórmula segundo a qual “O sonho é uma realização (disfarçada) de um desejo (suprimido ou recalcado)”.

Em complementação (e até corroborando esse pensamento de Freud) pode-se aqui também inserir a questão dos pesadelos.

Estes, apesar de, pelo menos aparentemente, não serem efetivamente um sonho de realização de desejos e sim um sonho de angústia, ainda assim pode-se detectar que neles o prazer está no

lugar de um outro prazer ou mesmo de um desprazer: “[…] a não-realização de um desejo significava a realização de outro”.

De toda forma os sonhos são de tão grande relevância na Psicanálise que levaram Freud a afirmar que:

A Teoria dos sonhos ocupa um lugar peculiar na história da Psicanálise. Tal Teoria representa um ponto de transição. Com ela, a análise passou de um método psicoterápico, à categoria de

Psicologia das profundezas da natureza humana.

Deve-se, porém, considerar também que, quando alguém conta um sonho, tecnicamente está mentindo. Isto porque a descrição de um

sonho por quem o experienciou corresponde apenas ao que é chamado de conteúdo manifesto.

Em razão disso Freud, no capítulo VI do seu “A Interpretação dos Sonhos , é enfático ao afirmar:

Introduzimos uma nova classe de material psíquico entre o conteúdo manifesto dos sonhos e as conclusões de nossa investigação: a saber, seu conteúdo latente, ou (como dizemos) os

´pensamentos do sonho”.

Em outros termos, por trás do relatado como sonho é que há o verdadeiro sonho, o conteúdo latente. Este não ocorre quando o

sonhante verbaliza a experiência. Ao relatar o sonho está, na verdade, fazendo apenas uma “tradução” das imagens oníricas já reordenadas pelo relator.

O Sonho manifesto não é senão, portanto, nada mais que o resultado de um conjunto de operações (o trabalho do sonho) que transformam os seus componentes, ou seja, transformam os estímulos corporais, os restos diurnos, os pensamentos do sonho, etc. O produto final resultante de todas essas transformações é, então, a experiência onírica.

Não obstante essas transformações é importante dar atenção ao sonho manifesto, mesmo sendo ele, como é sabido, carregado de

incoerências. Só não se deve perder de vista que se está diante de uma deformação que é o efeito do chamado Trabalho do Sonho. É com esse material amorfo que o Psicanalista trabalhará de modo a fazer vir à tona o sonho latente – o sonho sem a deformação manifestada – e que corresponde à satisfação de desejos e pulsões

inconscientes, isto é, aqueles afetos que foram reprimidos e que são relacionados, por exemplo, ao complexo de Édipo (como os desejos

incestuosos e as ideias parricidas), e ao complexo de castração.

2. A TÉCNICA DA INTERPRETAÇÃO

A transição do sonho manifesto em sonho latente, ou seja, a descoberta do verdadeiro (e oculto) conteúdo do sonho é a

grande questão, o “X” do problema a ser solucionado pelo psicanalista, a quem cabe proceder em conformidade com a técnica que permite operar a transição entre o conteúdo manifesto e o conteúdo latente dos sonhos.

Essa transição há que ser por meio da interpretação do relato que é colhido a partir de todas as associações livres, inclusive daquelas

decorrentes dos diversos componentes do sonho. Isso se constitui num processo análogo ao de arqueólogo, ou ao de garimpeiro, visando a busca de elementos que permitam a clarificação

daquilo que esteja obscuro. Nesse caso dos sonhos, em especial, porque são eles apresentados numa linguagem bem diferente da

usual quando se está em vigília, ou seja, numa linguagem visual, através de imagens.

3. COMPONENTES DOS SONHOS

Proponho considerar-se como sendo os componentes estruturais dos sonhos aqueles mecanismos que regem os fenômenos oníricos,

propostos por Freud com o “o trabalho do sonho”, incluindo também alguns princípios cujo conhecimento é de grande relevância como auxiliar no trabalho de interpretação de Sonhos.

Para ter melhor embasamento na compreensão dos fatores que regem os sonhos e cujo conhecimento se torna indispensável no trabalho da análise onírica, Freud, ao compor a Teoria do Trabalho do Sonho, enunciou quatro mecanismos básicos: a Condensação, o Deslocamento, a Figurabilidade e a Elaboração Secundária.

A Condensação – descrita inicialmente por Freud como um dos mecanismos fundamentais pelo qual se realiza o trabalho do sonho, é o mecanismo segundo o qual um elemento (tema, pessoa, etc.) é conservado apenas porque está presente por diversas vezes em diferentes pensamentos do sonho; ou, conforme Laplanche e Pontalis:

Diversos elementos podem ser reunidos numa unidade desarmônica (personagem compósita, por exemplo); ou ainda, a condensação de diversas imagens pode chegar a atenuar os traços que não coincidem, para manter e reforçar apenas o ou os traços comuns”. (LAPLANCHE e PON TALIS, 1998, pag. 88.

A condensação, nestes moldes, pode também ocorrer com nomes, como no caso relatado por Freud que, tendo recebido no dia Anterior um artigo de um amigo seu a respeito do qual achava tratar-se de uma opinião superestimada, sonhou com a frase “Está escrito num estilo positivamente Norekdal”. A análise determinou ser a condensação de “Nora” e “Ekdal” – personagens de duas peças famosas de Ibsen [Casa de Bonecas e O Pato Selvagem]. Esse

sonho era não mais que, também, uma crítica ao autor de um artigo de jornal sobre Ibsen, que Freud lera algum tempo antes.

Em outros termos, graças à condensação uma mesma imagem representa diversos conteúdos latentes. Desse modo uma mesma pessoa pode, num sonho, apresentar, sucessivamente, traços que lembrem os de vários parentes ou amigos, constituindo pessoas conjuntas. Da mesma forma, dada a massificação dos sistemas de comunicação atuais, imagens e slogans publicitários têm sido usualmente condensados nos sonhos.

A condensação é, portanto, um efeito da censura e um meio de escapar dela, tornando-se, por conseguinte, um complicador da leitura do sonho manifesto.

Outro mecanismo atuante nos sonhos e apontado por Freud é o Deslocamento, fenômeno correspondente ao:

Fato de a importância, o interesse, a intensidade de uma representação ser suscetível de se destacar dela para passar a outras representações originalmente pouco intensas, ligadas à primeira por uma cadeia associativa. […] Está ligada à verificação clínica de uma independência relativa entre o afeto e a representação e à hipótese econômica que a explica: uma energia de investimento ‘…que pode ser aumentada, diminuída, deslocada, descarregada’ (LAPLANCHEePONTALIS, 1998, p. 116).

A comparação entre o conteúdo manifesto e os pensamentos latentes do sonho faz surgir uma diferença de enfoque: os elementos mais importantes do conteúdo latente são representados por pormenores mínimos que são ou fatos recentes, muitas vezes indiferentes, ou fatos antigos sobre os quais já se tinha operado um deslocamento na infância. Em outros termos, a imagem menos interessante do conteúdo latente passa a ser portadora da ideia central do conteúdo manifesto. Numa analogia entre um sonho e um filme policial pode-se dizer que, pelo conteúdo manifesto, é que, por exemplo, ao expectador são dados todos os elementos para suspeitar do mordomo de modo a tirar o foco do verdadeiro criminoso.

A função defensiva é evidente no deslocamento: numa fobia, por exemplo, o deslocamento sobre um objeto fóbico permite objetivar, localizar, circunscrever a angústia. No sonho, a sua ligação com a censura é tal que pode surgir como efeito desta. Ou seja, a censura só provoca o deslocamento, na medida em que recalca certas representações pré-conscientes que, atraídas para o inconsciente, ficam então regidas pelas leis do processo primário.

O terceiro mecanismo dos sonhos é a Figurabilidade ou Representabilidade ou Dramatização. Este mecanismo corresponde à:

… exigência a que estão submetidos os pensamentos do sonho; eles sofrem uma seleção e uma transformação que os tornam aptos a serem representados em imagens, sobretudo visuais.[,,,]

“A transformação dos pensamentos em imagens visuais pode ser uma consequência da atração que a recordação visual, que procura ressurgir, exerce sobre os pensamentos separados da consciência e

que lutam por se exprimir […] Segundo esta concepção o sonho seria o substituto da cena infantil modificada por transferência para o recente.

LAPLANCHE e PONTALIS, 1998, p. 189).

 

Em outros termos, a cena infantil não conseguindo realizar-se de novo busca contentar-se (realizar o desejo) reaparecendo sob a forma de sonho, com imagens, temas e conceitos atuais. É uma espécie de reedição da fábula da Raposa e as uvas.

Por conseguinte, em função da dramatização o sonho assume um aspecto teatral, fazendo convergir, nele, o presente, o passado e o futuro, empregando truques como os usuais em artes cênicas, sendo que nos sonhos procuram “justificar” a ideia passada pelo drama intimamente vivenciado sem, entretanto, mostrá-lo efetiva e claramente. Por esses atributos advindos da dramatização tudo passa a ser possível nos sonhos.

O quarto dos mecanismos básicos utilizados durante o trabalho do sonho é o que Freud apontou e designou como Elaboração Secundária. Consiste na operação mental inconsciente por intermédio da qual o conteúdo latente de um sonho se transforma em um sonho manifesto, sendo, também, um efeito da censura.

Trata-se, portanto, de uma “remodelação do sonho destinada a apresentá-lo sob a forma de uma história relativamente coerente e compreensível” (LAPLANCHE e PONTALIS, 1998. p. 145).

A elaboração secundária, que é essa remodelação, consiste, essencialmente, em tirar a aparência de absurdo e de incoerência do sonho, tapando os seus buracos, remanejando parcial ou totalmente seus elementos. Com esse objetivo é possível observar a elaboração secundária em operação, quando o sonhante se aproxima do estado de vigília. Casos há até em que o próprio sonhante se dá conta de que o sonho já acabou e mesmo assim continua querendo direcionar lhe a uma conclusão.

Constata-se, também, a elaboração secundária sendo reforçada no momento em que o sonhante faz o relato do seu sonho. Na verdade, porém, a elaboração secundária é contemporânea de cada momento do sonho.

Apesar de ser uma decorrência da censura, a elaboração secundária não tem só um papel negativo; pode, ao contrário, produzir acréscimos, conforme Freud fez questão de destacar.

Da aproximação entre a elaboração secundária e a formação de certos sistemas de pensamentos, inferiu Freud que:

Há uma função intelectual que nos é inerente e que exige unificação, coerência e inteligibilidade de todos os materiais que se apresentem à nossa percepção ou ao nosso pensamento; esta não teme estabelecer relações inexatas quando, em consequência de determinadas circunstâncias, é incapaz de apreender as relações corretas.

Conhecemos certos sistemas que caracterizam não apenas o sonho, mas igualmente, as fobias, o pensamento obsessivo e as diferentes formas de delírio. Nas afeções delirantes (a paranóia), o sistema é o que há de mais manifesto, domina o quadro mórbido, mas não deve ser desdenhado, como não o deve ser nas outras formas de psiconeuroses. Em todos estes casos, podemos demonstrar que se efetuou uma remodelação do material psíquico em função de um novo objetivo, remodelação que é muitas vezes fundamentalmente forçada, embora compreensível se nos colocarmos no ponto de vista do sistema (in “Totem e Tabu”, apud APLANCHE e PONTALIS, 1998, p. 145).

Disso decorre, então, que, neste sentido, a elaboração secundária pode ser considerada aproximadamente uma tentativa de racionalização. Mas, como esclarece Freud:

[…] essa elaboração tendenciosa tem um êxito apenas parcial; a coerência parece prevalecer até certo ponto, mas depois o sonho se torna disparatado ou confuso, embora talvez, mais adiante, possa apresentar mais uma vez uma aparência de racionalidade” (FREUD, 1900, p.476).

Além dos mecanismos acima descritos convêm incluir aqui alguns princípios gerais que norteiam os estudos e interpretações de sonhos

e que integram este conjunto aqui denominado “componentes estruturais dos sonhos”. Entre tais princípios é conveniente que sejam inseridos os já algumas vezes citados “Conteúdo Latente” e “Conteúdo Manifesto”.

Em “A Interpretação dos Sonhos” Freud criou o termo “conteúdo manifesto” para referir-se à experiência consciente durante o sono, correspondendo ao relato ou descrição verbal do sonho, ou seja, aquilo que o sonhante diz lembrar. Já o “conteúdo latente” corresponde às ideias, impulsos, sentimentos reprimidos, pensamentos e desejos inconscientes que poderiam ameaçar a

interrupção do sono se aflorassem à consciência claramente.

Daí o entendimento de que o sonho é apenas o resultado final de uma atividade mental inconsciente, ou seja, uma experiência subjetiva que, por sua natureza ou intensidade, interfere no processo fisiológico durante o sono fazendo com que a pessoa, ao invés de acordar, sonhe.

Mas, se a carga de afetos é de tal ordem que consiga interromper o sono, disso resultarão expressões na consciência, sob a forma de conteúdo manifesto que, no entanto, denotam o conteúdo latente. É o caso, por exemplo, dos sonhos que acordam o indivíduo sob forte taquicardia, ou resfolegante como se acabasse de empreender uma corrida acelerada ou com uma intensa sudorese, etc. O conteúdo latente de sonhos que são interrompidos dessa forma é geralmente constituído por desejos ou tendência anti-morais e ou delituosas, como, por exemplo, tendências incestuosas, pedofílicas, etc.

Como é fácil depreender o conteúdo latente é, para a Psicanálise, a parte mais importante do sonho, de vez que engloba todos os desejos, problemas, neuroses e até predisposições psicóticas.

O conteúdo latente dos sonhos pode ser constituído por: (1) quaisquer sensações que possam ser introduzidas no sonho através dos órgãos sensoriais daquele que dorme, tais como o som de um despertador, sede, fome, urgência em urinar ou defecar, dor num ferimento, calor ou frio desconfortáveis, etc. (2) Pensamentos e ideias relacionados às atividades e preocupações do dia-a-dia do sonhante. (3) Um ou vários impulsos do Id banidos pelas defesas do Ego e da consciência, durante o estado de vigília.

Correlacionando esses princípios e os já abordados mecanismos dos sonhos, pode-se dizer que às vezes o conteúdo latente funde-se ou associa-se ao conteúdo manifesto e o indivíduo vê, no sonho, uma pessoa que lhe é conhecida, com a expressão fisionômica de uma outra. Nesses casos diz-se que a elaboração onírica condensou os dois elementos. Outras vezes a elaboração substitui a ideia latente por outra muito diferente, por simples alusão: Deslocamento da ideia, o que mostra que um elemento manifesto pode ser substituído por antítese, isto é, justamente pelo seu contrário.

A análise do relato de um sonho pode levar o analista a perceber que o indivíduo comete omissões de alguns detalhes, distorções de algumas associações, etc., num esforço de evitar a análise. Há sempre uma luta travada no íntimo do relator, que busca neutralizar os pensamentos, os impulsos e os desejos que gostaria de manter afastados da consciência.

Também integrando o corpo de “princípios gerais” que norteiam a interpretação de sonhos e até mesmo com base nos quatro mecanismos estudados, algumas outras condições devem ser levadas em conta nesse trabalho de interpretação psicanalítica. Assim, por exemplo, os “restos do dia” ou “sonho de serviço” que são os sonhos desenvolvidos, elaborados, a partir de fatos da véspera da ocorrência do sonho. Têm por base o dia-a-dia anterior do sonhante. Frequentemente, contudo, o sonho começa com o “resto do dia” depois passa para um “sonho de cima”; depois, para um “sonho de baixo” e pode até chegar ao “Conteúdo Latente”.

Sobre o entendimento a respeito de “sonho de cima” e “sonho de baixo”, Heitor A. Silva refere que “Freud faz uma distinção, mas ‘não radical’ entre sonhos de cima e sonhos de baixo” (SILVA, 1998, p. 69).E esclarece:

a) De cima – correspondem a pensamentos ou intenções do dia anterior, que tramaram durante a noite obter reforço do material reprimido que é excluído do ego. […]

b) – De baixo são aqueles provocados pela força de um desejo inconsciente (reprimido) que encontrou um meio de ser representado em alguns resíduos do dia. Eles devem ser encarados como incursões do reprimido na vida desperta. *SILVA, 1998, p. 69 e 70)

“Sonho de Cima” e, então, usualmente, aquele que tem a ver com os fatos vivenciados na semana passada, no mês passado, no ano passado. Enfim, são os derivados de fatos que, se não ocorreram exatamente no dia anterior, ocorreram, mas numa época não tão remota. Já o “Sonho de baixo”, ao contrário, é aquele que provém de fatos vivenciados na infância que, entretanto, são desprovidos de carga de afetos exacerbados. Usualmente não é um sonho angustiante. Quando um sonho chega a manifestar angústia no sonhante, ao acordar, é porque, enfatize-se, foi alcançado o “Conteúdo Latente”.

3. CONCLUSÕES

Interpretar um sonho não é, evidentemente, tarefa muito fácil. Será preciso saber o que é, primeiramente, o sonho que efetivamente há (o sonho latente) por trás da forma como se apresenta (o sonho manifesto).

Baseando-se na compreensão de que no inconsciente entra em jogo uma série de forças intensas, quase sempre afetivas e que na vida desperta, no estado de vigília, a censura é mais atenta, mais enérgica para evitar que os impulsos do id se exteriorizem, é de esperar que quando o indivíduo dorme o “censor” também “cochile” de modo a permitir aos elementos reprimidos no Ics, livre curso psíquico, manifestando-se, dessa forma, através dos sonhos, o que confere a estes, inquestionável importância no trabalho psicanalítico.

É, entretanto, necessário, para poder compreender os sonhos, ter sempre em mente que eles não se manifestam coordenadamente em termos de palavras, frases, proposições, etc.

Esses meios de expressão são, nos sonhos, substituídos por “imagens visuais” que, por outro lado, constituem uma linguagem simbólica representativa de desejos e afetos reprimidos.

Usando de uma analogia, o sonho é como uma espécie de filme silencioso, sem as legendas esclarecedoras. Na verdade, assemelha-se mais a uma reunião de várias “películas”, de vários filmes dramáticos e cômicos, emendados aleatoriamente. Assim, ao assistir a essa sucessão de imagens ninguém poderia compreendê-la, sem um esforço de associação de ideias.

Dessa forma, a interpretação de um sonho requer, pelo menos, que se conheçam as principais significações simbólicas, o que deve ser elaborado através do material derivado das Associações Livres. Se do inconsciente nos vêm as formações psíquicas atávicas, as imagens simbólicas constituem regressões a longínquas formas elementares do pensamento.

O objetivo do sonho está claro, é justamente o transformar as ideias profundas, ocultas, do sonhante, em alusões, comparações, etc., através de imagens visuais. Essas ideias ocultas são precisamente as emoções inconfessáveis, os sentimentos afetivos reprimidos que, cerceados por uma satisfação real na vida desperta, procuram satisfazer-se no sonho. Ou melhor, satisfazem-se em realidade psíquica.

Daí a conclusão final de que: (1) – Todos os sonhos são uma realização de desejos, ou contêm a realização de um desejo frustrado; (2) – A figura central dos sonhos, em qualquer hipótese, é o próprio sonhante; (3) – Para levar a efeito a interpretação de um sonho, é necessário evocar ideias, através da Livre Associação, partindo de cada um dos fragmentos e procurando preencher habilmente as lacunas da memória quando estas de súbito se apresentam em torno de uma determinada lembrança; (4) – Deve ser dada a mais séria importância aos fatos ocorridos mais recentemente (os das vésperas do sonho, os “Restos diurnos”); (5)– Os sonhos traduzem sempre uma preocupação do presente dramatizado sobre elementos mnéticos do passado; (6) – Uma mesma série de imagens oníricas pode representar ou simbolizar um fato e seu contrário (antítese), isto é, a ação positiva e a negativa. Assim, quando em sonhos é visto uma pessoa morrer, esse fato pode significar tanto nosso desejo de que ela morra, quanto o desejo de que ela não morra; (7) – As relações de analogia entre fatos e processos se expressam no sonho geralmente mediante o aparecimento de algum elemento comum a ambos, por via associativa; (8) – Os sonhos nos quais o indivíduo desperta de modo brusco, angustiado, acometido por uma grande opressão ou mal-estar, são sonhos que denotam relacionarem-se a conteúdos latentes, geralmente constituído por tendências francamente antimorais e delituosas ou, enfim, uma situação violenta vivida e

reeditada, ainda que simbolicamente, no sonho; (9) – Todo sonho depende de estímulos, tais como, por exemplo: (a) Excitação sensorial externa (objetiva), como raio de luz, ruído de despertador, galo cantando, determinado cheiro, etc.; (b) Excitação sensorial interna (subjetiva), compreendendo os fatores estruturais e os motivos latentes propriamente ditos; (c) Estímulo somático interno (orgânico), considerando aqui todas as causas orgânicas tais como dores, incômodos, etc.; (d) Fontes de estímulos puramente Psíquicos, ou seja, os instrumentos complexos da elaboração do sonho.

Ainda como parte destas conclusões deve se considerar que: (1) – Nos sonhos da última parte da infância e da vida adulta, o conteúdo latente tem duas origens: uma no presente e a outra no passado. A parte essencial do conteúdo latente é a que provém do Id reprimido; é a parte que contribui com a maior parcela de energia psíquica necessária ao sonho, sem cuja participação não há sonho; (2) – Um anseio latente pode, no sonho, apresentar-se como uma repugnância manifesta, ou vice-versa. Assim, o ódio pode manifestar-se como amor, a tristeza como alegria, etc. É o que constitui a “antítese” já mencionada no item (6) do parágrafo anterior; (3) – É o próprio analisando (o paciente) quem vai dizer o que o seu próprio sonho significa, com as informações que ele fornece; (4) – A interpretação de sonhos realiza-se através de uma resistência que visa impedir a perfeição da análise. A resistência, tão presente na Livre Associação, também interfere nas lembranças relativas ao sonho, encarregando-se de provocar desvios de apreensão e de entendimento: o que

foi elaborado para burlar o superego certamente também se encarregará de distrair o Ego. Daí, então, resultar que, as ideias que o indivíduo encobre, ou que a crítica reprime, serem justamente, sempre e sem exceção, as mais preciosas, as mais importantes e decisivas à análise; (5) – Poder interpretar um sonho é também ser capaz de levar a cabo a cura de uma neurose, pelo acesso, no estado de vigília, aos afetos reprimidos.

 

 

 

 

REFERÊNCIAS

CARVALHO, Uyratan Silva de. Psicanálise I; Curso: Formação de Psicanalistas Clínicos, Projeto 2000/2000. 2.ed. Rio de Janeiro,SPOB, 1999. 191p.

FREUD, Sigmund. A Interpretação de Sonhos. Edição comemorativa 100 anos. Tradução de Walfredo Ismael de Oliveira. Rio de Janeiro.IMAGO, 2001. 614 p.

GARMA, Ángel. Rio de Janeiro,IMAGOEd., 1991. 470p.

GREENSON, Ralph R. A Técnica e a prática da Psicanálise. Rio de Janeiro, Imago, 1981. 499p.

LAPLANCHE e PONTALIS – Vocabulário da Psicanálise, 3.ed. São Paulo, Martins Fontes, 1998. 552p. SILVA, Gastão Pereira da. Psicanálise dos Sonhos. Belo Horizonte, Editora Itatiaia Ltdª, 1968. 239p.

SILVA, Heitor Antonio da. Interpretação dos Sonhos.