O INCONSCIENTE

O INCONSCIENTE

(Do livro “O que é Psicanálise” – de Fábio Herrmann. Ed. Brasiliense – 1983, pág. 33-42)

 

Que significa haver consciente? Em primeiro lugar, … uma certa forma de descobrir sentidos, típica da interpretação psicanalítica. Ou seja, tendo descoberto uma espécie de ordem nas emoções das pessoas, os psicanalistas afirmam que há um lugar hipotético donde elas provêm. É como se supuséssemos que existe um lugar na mente das pessoas que funciona à semelhança da interpretação que fazemos; só que ao contrário: lá se cifra, o que aqui deciframos.

Veja os sonhos, por exemplo. Dormindo, produzimos estranhas histórias, que parecem fazer sentido, sem que saibamos qual. Chegamos a pensar que nos anunciam o futuro, simplesmente porque parecem anunciar algo, querer comunicar algum sentido. Freud, tratando dos sonhos, partia do princípio de que eles diziam algo e com bastante sentido. Não, porém, o futuro.

Decidiu interpretá-los. Sua técnica interpretativa era mais ou menos assim.

Tomava as várias partes de um sonho, seu ou alheio, e fazia com que o sonhador associasse idéias e lembranças a cada uma delas. Foi possível descobrir assim que os sonhos diziam respeito, em parte, aos acontecimentos do dia anterior, embora se relacionassem também com modos de ser infantis do sujeito.

Igualmente, ele descobriu algumas regras da lógica das emoções que produz os sonhos. Vejamos as mais conhecidas. Com freqüência, uma figura que aparece nos sonhos, uma pessoa, uma situação, representa várias figuras fundidas, significa isso e aquilo ao mesmo tempo. Chama-se este processo condensação, e ele explica o porquê de qualquer interpretação ser sempre muito mais extensa do que o sonho interpretado.

Outro processo, chamado deslocamento, é o dar o sonho uma importância emocional maior a certos elementos que, quando da interpretação, se revelarão secundários, negando-se àqueles que se mostrarão realmente importantes.

Um detalhezinho do sonho, aparece, na interpretação, como o elo fundamental.

Digamos que o sonho, como um estudante desatento, coloca erradamente o acento tônico (emocional, é claro), criando um drama diverso do que deveria narrar; como se dissesse Ésquilo por esquilo… Um terceiro processo de formação do sonho consiste em que tudo é representado, por meio de símbolos e, um quarto, reside na forma final do sonho que, ao contrário da interpretação, não é uma história contada com palavras, porém uma cena visual.

Essas e outras propriedades da linguagem onírica (onírico – do sonho) constituem os mecanismos de formação dos sonhos. Mas – preste atenção! – como conhecemos tais mecanismos: Do conjunto de associações que partem do sonho, o intérprete retira um sentido que lhe parece razoável.

Para Freud, e para nós, todo sonho é uma tentativa de realização do desejo. A interpretação, por conseguinte, mostrará uma história que contém um anseio satisfeito; tal como: “eu queria ter isto ou fazer aquilo”, “A culpa do que fiz não é minha”, “Isto realmente não aconteceu”, “Vejo-me assim”, etc. A história reconstruída pela interpretação chama-se “conteúdo latente do sonho”, em oposição àquilo que o sonho efetivamente mostra, que é seu “conteúdo manifesto“.

Os mecanismos oníricos, portanto, são a medida da transformação de um texto em outro, são o que traduz o conteúdo latente em conteúdo manifesto.

Uma charada, onde certas regras lógicas permitem transformar uma frase noutra, cujo sentido é obscuro, até que o charadista a mate.

Pois bem, como na charada, os mecanismos para criá-la não são outra coisa senão o inverso daqueles que usamos para resolvê-la.

Se nós fizemos associações ramificadas a partir de cada elemento do sonho, é natural que cada figura possa condensar várias figuras, tantas pelo menos quantas tivermos associado.

Se descobrimos assim um outro valor afetivo para o sonho, segue-se que o conteúdo manifesto acentuou diferentemente – em relação ao conteúdo latente – tais valores, realizou “deslocamentos”. Se cremos ter encontrado o sentido verdadeiro do sonho, este o exibia falso, ou simbólico.

Se, por fim, ao interpretá-lo, transformamos a linguagem visual do sonho em palavras, só nos resta dizer que o sonho havia transformado as palavras do conteúdo latente nas imagens do conteúdo manifesto.

Simples, não è? O inverso do processo interpretativo, o caminho de ida, se a interpretação fosse o de volta, atribui-se ao inconsciente – são os processos psicoprimários, por oposição aos da consciência, os processos psicosecundários.

Será tudo apenas um brinquedo, uma charada que se inventa para resolver? Não, por certo; e já veremos por quê. Apenas você deve compreender que o inconsciente psicanalítico não é uma coisa embutida no fundo da cabeça dos homens, uma fonte de motivos que explicam o que de outra forma ficaria pouco razoável – como o medo de baratas ou a necessidade de autopunição.

Inconsciente é o nome que se dá a um sistema lógico que, por necessidade teórica, supomos que opere na mente das pessoas, sem no entanto afirmar que, em si mesmo, seja assim ou assado. Dele só sabemos pela interpretação.

Todavia, se não é por puro amor à charada, para que servem os disfarces do sonho? Os psicanalistas pensam que têm bastante utilidade.

Teoricamente, supomos que haja uma série de forças impulsionando a vida mental. Em que forma existem, não se sabe ao certo.

Porém, imaginamos que sejam forças que operam de permeio entre o físico e o psíquico. (Não é dizer muito, sei, mas é o máximo a que podemos chegar…)

Essas forças ou pulsões representam as necessidades do organismo humano e de seu psiquismo, tais como fome, sexo, curiosidade (diga “epistemofilia”, se quiser surpreender os seus amigos com uma palavra difícil, que significa “adição ao conhecimento” ou “curiosidade de saber”) etc.

Dessas pulsões, quase nada sabemos, são hipóteses teóricas. Entretanto, elas se fazem representar na vida mental por uma espécie de corpo diplomático – os representantes psíquicos da pulsão – que induz a psique a satisfazê-las. Eu posso não saber exatamente o que é a fome fisiológica, mas sei bem o que significa sentir fome.

Ora, pois, se eu sinto fome durante o sono, é possível que acorde, o que viria prejudicar outra necessidade, a de repouso; então sonho que como e me engano por algum tempo.

Pode suceder, não obstante, que me ocorra um desejo menos aceitável, como o de redecorar a sala de visita de casa com uma pintura de fezes. Não se espante, as criancinhas têm vontades desse tipo, e infelizmente as realizam, se não houver quem lhas impeça.

Desejos de tal monta, contrários frontalmente às aquisições duma boa educação, feririam os pudores da consciência – além de ferirem outro sentidos que não o estético -; têm de ser disfarçados, há uma censura interna que lhes proíbe o acesso á consciência.

De forma análoga são censurados certos desejos sexuais, agressivos e outros. Muito daquilo que nossa vida infantil permitia, na fase adulta já não pode mais nem ser pensado, ou porque viole as normas de socialização, ou porque contraria outros impulsos mais importantes. Seria ótimo viver de brisa, a preguiça o diga, mas as necessidades de manutenção pessoal ficariam muito contrariadas com tal regime.

Par conjugar tendências tão opostas, a psique lança mão de um truque. De um lado, ela não permite que cheguem a ser representadas concientemente as pulsões muito contrárias ao conjunto da vida mental duma fase qualquer da vida.

Não se representam, porém nem por isso desaparecem – em alguma parte do coração temos sempre 20 anos, em outras partes, 5 ou 6 meses de idade.

À proibição de se representar conscientemente uma pulsão denomina-se repressão; se ela é muito completa, recalcamento.

A repressão, portanto, impede que a idéia (ou representação) dum impulso aceda à consciência; contudo, o prazer ou o desprazer ligado à representação não dá para sufocar.

Os afetos passam. Só que passam – e aí está o truque – disfarçados, ligados a outra representação ou idéia, simbolizados.

Daí a utilidade dos processos de formação do sonho, segundo Freud, pois despertaríamos desgostosos caso tivéssemos contanto com as idéias originais.

Os sonhos, os atos falhos (a que já me referi), os sintomas neuróticos funcionam pois como válvulas de escape para o reprimido.

Mais do que isso. São verdadeiras obras de arte, fundindo, numa mesma idéia, pulsões obstadas e a censura que as proíbe. Como se os sonhos dissessem: “Quero isto, mas isto não é isto, nem sou eu que o quero…. “. Cuidado, pois, ao negar de muitas maneiras diferentes a mesma coisa!

Vamos rever esse esquema teórico. Há pulsões (ou impulsos). Alguns deles não se podem realizar, nem se representam conscientemente, pois contrariam o equilíbrio da vida mental, gerando desprazer.

Já que a mente tende ao prazer, a idéia que os representa é recalcada. Como o afeto não o pode ser, este aparece, mas disfarçado, como se se manifestasse em outra idéia.

Esparramar as fezes pela sala é incompatível com uma pessoa bem educada; pintar um quadro – por mais feito que seja, cheira menos mal – é compatível, é até meritório.

Modificou-se o fim do impulso, transformado em algo mais elevado culturalmente, mais sublime: denomina-se isto “sublimação”.

Ou então, o impulso aparece menos disfarçado – todavia disfarçado ainda – num sonho, num ato falho, num sintoma. Entendeu?

Decerto só ficamos sabendo de tudo isso através de interpretações. Logo, o processo de encobrimento é apenas o reverso do processo de interpretação. O inconsciente, por assim dizer, é uma interpretação ao contrário.

Ora, se alguma coisa parece irracional, depois de interpretado, ela fica bem explicável. Se alguém teme um bichinho inofensivo, sempre se pode dizer que este, o bichinho, representa impulsos autodestrutivos inconscientes. E os impulsos autodestrutivos, é justo temê-los. Será certo pensar assim? Bom, não muito. Senão, como se costuma dizer, Freud sempre explica.

Contudo, há muitas pessoas que pensam que a Psicanálise é bem isso; e há outras pessoas que a xingam por ser desse jeito, exatamente como não é.

Pois, para a Psicanálise, tanto o que é incompreensível quanto o que é bem compreensível à luz da vida cotidiana merecem igualmente que se interprete.

As pessoas comuns costuma explicar o que fazem da seguinte maneira. Eu fiz isso assim porque tinha motivos. Se os motivos não me ocorrem, entretanto, é possível que sejam motivos desconhecidos, inconscientes que justifiquem minhas idéias e ações.

 

O importante, você vê, é manter a proporcionalidade entre motivo e ação. Nem que, para tanto, tenhamos de inventar motivos inconscientes ou atribuir qualidades e defeitos aos outros, como faz o homem preconceituoso . (Se você não o fez, fê-lo seu pai ou tio, ou pelo menos você poderia tê-lo feito etc.)

Nada mais diferente dessa psicologia motivacional primária do que a Psicanálise. O método psicanalítico não se vale da lógica cotidiana, da proporção entre motivo e ação. Por que só o irracional haveria de ter motivos inconscientes; e o resto? O inconsciente não é um sistema de explicações para o inexplicável, mas uma lógica diferente.

Tais explicações justificam o porquê duma idéia ou ação, quando ela já se deu: são racionalizações. A interpretação psicanalítica visa demonstrar o processo que torna possível uma idéia ou ação, a maneira pela qual nós as concebemos, a lógica da concepção.

Não a lógica superficial do que já foi concebido. Lógica da concepção, lógica das emoções ou lógica inconsciente são nomes da mesma coisa: mostram o como, não se detém no porquê.

Além disso, a interpretação… parte da noção de que há sempre inúmeros sentidos, e não um só sentido verdadeiro.

Por essa última razão, dá-se algo curioso com a teoria psicanalítica. Ela poderia explicar quase tudo, é claro. Por isso, preferimos usá-la para não explicar nada, a não ser o próprio processo de concepção.

Assim, quando se usa uma teoria psicanalítica para interpretar, mesmo que seja uma teoria tão respeitável como a do complexo de Édipo, estamos sempre procurando refutá-la.

No mínimo, estamos abertos a que a prática a refute. Chamo a isso “princípio de risco” do processo interpretativo.

Aliás, se uma teoria qualquer entra no começo duma interpretação concreta – feita a um paciente, por exemplo -, é de se esperar que ela saia modificada na outra ponta da interpretação.

Caso contrário, se sai igual, direi que apenas encontramos o que já tínhamos colocado, que a interpretação foi teoricamente indiferente – conquanto talvez até possa ter sido clinicamente útil. Se a teoria se modifica, se se especifica ou é corrigida, aí sim penso que se tratou duma interpretação teoricamente significativa.

A teoria, por conseguinte, arrisca-se, de cada vez que a empregamos de forma legítima na prática analítica.

Sempre estamos á procura de outra coisa, de que algo novo surja. Essa possibilidade sempre presente de dissolução da teoria faz com que devamos considerar a prática psicanalítica não como conseqüência simples das nossas teorias, porém como uma atividade teórica muito perigosa e radical. Come feito, a prática analítica é o ponto de fusão de sua própria teoria.

 

(Observação: os sublinhados não constam no texto original – têm o sentido de destacar o que se supõe importante)

 

 

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